desvenda-me se for capaz
texto extraido do livro os magos de santa ana
DESVENDA-ME SE FOR CAPAZ
Nino chega gritando em casa pela mulher Aau-xi-lhi-aaaa-dooora! Venha tirar as minhas botas. Imprestável!
-Pronto meu senhor.
- Que mulher lerda!Da um tapa no canto do ouvido da mulher.
-Pai, não faca isso com a mãe!
Reclama Nininho.
-Cala-te filho. Em briga de marido e mulher só o diabo mete a colher. É esse o ditado. Vê se aprende.
-Eu pensei que fosse o contrário!
-O contrário é não meter. Tem que meter o pau nelas!
Ele olha nervoso para a sua mulher Auuu-xiii-lhiiiaa-dooora.
-Que e que você esta me olhando? Sua beata. Vive. Fazendo novenas e confessando. Vá mesmo!Confessa teus pecados! Não se esqueça de acender duas velas: Uma para mim e a outra para o se Deus. Reza quem sabe assim você vai para céu. Agora vá para a cozinha. O fogo do caldeirão te espera. Vá, vá! Gritou ele cheio de misogenismo.
-Não trate a mãe assim pai. Ela e uma santa!É caridosa... Ajuda o carente, as criancinhas abandonadas com padre Bentinho.
Fera nenhuma!
Ela devia se preocupar é comigo. Apesar de gordo e velho ela sabe que precisa de mim. Eu sou seu pão de cada dia.
Nesse momento chega padre Bento. Nino olha espantado e pergunta;
Padre, onde estavas?
Auxiliadora aparece e responde;
- Estava fazendo comigo a minha novena.
Vai rezar assim no inferno! Reza quem sabe assim você vai para o céu! Tem galinha hoje para comer?
- Ainda não preparei nada para você comer.
Reponde Auxiliadora.
-Ta vendo filho? Se eu não comer no bordel morro de fome em casa. Ela só quer saber de fazer caridade. Beata só pensa no céu. Só de falar me da vontade de dar umas porradas nessa corna conformada.
Chega cadelão fazendo festa para Auxiliadora. Era um cachorro pretão. O terror das galinhas. Quando burlava a segurança invadia o galinheiro, comia com sua bocarra as pobres galinhas. Cadelão era pegador. Pulava em cima de suas vitimas com seu latido grosso e imperdoável.
Mas quem nutria um carinho por ele era Nininho. Nas noites de lua cheia saia para passear com o animal. Tinha uma coleira especial com a cruz de são Bento. Nininho saia sem camisa para mostrar os peitos cabeludos. As donzelas que passavam por eles soltavam gritinhos e piadas.
-Que Cadelão bonito!Ele morde?
Cadelão mostrou o seu latido firme e grosso: AUU... AUUUU... AUUUUU....
-Nossa que latido grosso!Estou com as pernas tremulas e as mãos suadinhas.
Cadelão foi até uma arvore levantou uma das pernas para urinar. Nininho estufou o peito e sorriu para as donzelas que suadas se retiraram. Sabiam da fama de cadelão: O comedor de galinhas.
Mas a paixão de Nino era a galinha cocotinha. Era branquinha, pequena e jeitosa. De andar faceiro, chegando a pequenos e suaves requebrados sensuais. Era uma bela galinha! Nino tinha ciúme de Cocotinha. Pela manhã dormia com ela abraçadinho na rede da varanda. Cocotinha bicava no pescoço de Nino. Piscava os olhinhos cansados das madrugadas...
-. Galinha boa tem que ser bem tratada.
No entanto cocotinha era sem controle. Fujona e misteriosa. No final da tarde dava um jeitinho de burlar a segurança e fugir. Nino chegava para dar carinho e ração e nada. Cocotinha já tinha batido asas para suas noitadas e madrugadas. Nino dono de um bordel ficava lá trabalhando pensando na branquinha. Aquele homem que chefiava as putinhas se alegrava quando via na varanda a sua galinha deitadinha com os olhinhos inocentes olhando para ele. Como era meigo e leal o seu olhar. Sim, não tinha dúvidas. Ela até chorava quando olhava para ele. Tinha medo de cadelão o comedor.
-Auuuxi-lhiaaa-dooraa! Quero cadelão longe da minha galinha. Cocotinha não pode ser comida de cachorro. Quando for para a missa não se esqueça de rezar para eu chegar em casa e encontrar minha galinha sã e salva.
Nininho abraça a mãe e pede:
.-Pai a mãe trata muito bem da sua galinha.
- Está bem filho sua mãe merece um beijinho.
Cadelão atento da três latidos graves. Seus olhos ficam vermelhos. Cocotinha tinha entrado em casa com seu andar elegante, insinuante, abrindo e fechando os olhinhos. Cadelão babava. Sua vontade era de pular em cima dela. Enfiar os dentes no seu peitinho. Ouvir seus gritinhos de dor. Por fim se entregar a sua fome insaciável comendo-a todinha. Ele sim era um conhecedor de galinhas. Conhecia suas táticas. Seus mistérios. Por isso elas o temiam. Mas aquela era atrevida, dissimulada, desafiadora. Só faltava gritar: desvenda-me se for capaz! Cadelão respondia gulosamente para cima dela. Nino grita:
-Quieto cadelão!
Pegou a galinha carinhosamente e a colocou no colo. Qquieto Cadelão./ quieto Cadelão/
Nininho comovido com a bondade do pai finalizou os atos de todas essas cenas com uma afirmação questionadora:
- Ó meu pai, quanto sabedoria em seu olhar. Se não fosse uma parte da minha escuridão não teria dúvidas em afirmar: Até com as galinhas o senhor é sábio.
-Graças a Deus!
Respondeu imediatamente padre Bento fazendo o sinal da cruz.
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