SUPER Textos

Zona Morta: Uma rosa banhada à sangue

Capitulo 1 - Sozinha

Aquele dia iria entrar para a historia, isso é, se houvesse historia, de hora em hora algo aparecia no noticiário, pessoas falando um monte de besteiras, eles tentavam manter a população calma, mais o que conseguiam era criar cada vez mais um ambiente de medo.

Especialistas, médicos, policiais, federais, políticos, todos diziam a mesma coisa, que era apenas uma crise passageira, e como todas as outras que nós enfrentamos seria resolvida, mais a cada minuto que se passava, o que se via era totalmente diferente, não adiantava eles tentavam enganar todos os habitantes com suas promessas falsas, mais dentro deles, eles sabiam que não havia nada a ser feito, nesse momento não existia mais diferença de classe social, ou cor, todos eram iguais, todos precisavam de ajuda, era o único jeito de sobreviver há aquilo tudo.

Meu medo cada vez mais tomava meu corpo, meus pensamentos já não tinham uma direção certa, em que pensar?, em quem acreditar?, o que eu deveria fazer?, como agir?, era difícil para mim mesma aceitar a situação, não apenas aquela situação, mais parar para pensar que eu tinha perdido meu pai a quem eu amava tanto, que minha carreira promissora tinha ido por agua abaixo, até mesmo pensar que o meu chefe pode nem está mais vivo, ou se tiver pode ter sido infectado com essa tal doença que deixa os outros loucos, ele era chato, mais preferiria os gritos dele de raiva, aos gritos de sofrimento que ouvia do lado de fora. A pior coisa a se pensar não era o que já tinha passado, mais sim o que eu iria fazer naquele momento, ainda com lágrimas jorrando pelos meus olhos, me levantei, indo até a porta do local, afastei a estante que havia colocado para impedir que alguém entrasse, e abri uma pequena parte da porta, o máximo para que eu pudesse ver que não havia ninguém lá fora, não sei se posso chamar aquilo de felicidade, mais que foi um grande alivio isso foi, logo terminei de puxa-la deixando quase toda aberta, sai caminhando pelos corredores, atrás da saída, apôs alguns minutos de caminhada, ouço um barulho bem ao lado do meu ouvido direito, me virando bruscamente, olho para ver o que era, miro minha visão na parede quase soltando um grito, queria espancar aquele maldito relógio que estrondou no meu ouvido, mais não adiantaria, já que ele não iria sentir nada mesmo, tratei de pensar que devia ter forças, para encontrar o Fernando, e assim juntos, conseguimos um jeito para sairmos da cidade, já que a essa altura, o aeroporto se não tivesse devastado, estaria muito cheio, e seria perda de tempo tentar usar ele para sair, caminhei mais um pouco olhando para os lados, passei em frente a recepção do local, o chão estava todo melado de sangue, apenas dois corpos continuavam debruçados sobre o chão, cheguei mais perto, tentando ver se conseguia identificar alguém do lado de fora, olhei para os lados e me deparei com uma cena bem estranha, não havia ninguém mais na rua, apenas carros virados, motos batidas, as sirenes da ambulância ainda davam seu último suspiro, desci alguns degraus, ainda meio apreensiva do que eu podia encontrar decidi não esperar muito e corri com um pouco de dificuldade, até a garagem do local para verificar se meu carro ainda estava lá, passei por alguns carros virados, outros em condições melhores, e logo entrei pela primeira porta do campo onde ficava a garagem, corri mais alguns metros e logo achei o meu carro, respirei fundo e observei ele de longe, para ver se não havia sido depredado por algum maluco, e para minha sorte, não, não havia sido se quer arranhado, acho que hoje é meu dia de sorte, é bem, se tratando do resto dos acontecidos, não era bem um dia de sorte, mais acho que naquele momento poderia me considerar uma sortuda, logo me dirigi a ele, pegando a chave do bolso, e entrando nele, dei a partida, e sai daquele local.

Andei alguns quilômetros, observando tudo, pessoas corriam para todos os lados, o chão era um mar de sangue, não tinha mais como diferenciar os loucos das pessoas normais, se é que ainda tinham pessoas normais, passei algumas quadras apôs entrar no bairro onde o Fernando morava, e logo cheguei a frente da casa dele, de começo não pensei em muita coisa, abri a porta do carro, e corri para a entrada, precisava ver muito ele, toquei a campainha algumas vezes, e para minha felicidade ele me atendeu, talvez meu dia estivesse tomando outro rumo, sem esperar mais nada, abracei ele, a felicidade foi tanta, que não percebi que o braço dele estava machucado, fiquei alguns minutos abraçada com ele, ele me retribuiu como sempre, mesmo com o braço ferido, ele me retribuiu, acho que foi por isso que me apaixonei por ele, soltei ele alguns minutos depois, só assim percebendo o ferimento no braço dele, tratei de perguntar o que era, e ele me respondeu que quando foi sair de casa, o vizinho dele o havia mordido, não quis saber muito dos detalhes, e logo fui no banheiro pegar uma caixa de primeiro socorros, apesar de ser médico o Fernando não é muito bom em cuidar dele mesmo, fiz um curativo rápido no braço dele para estancar o sangue, e perguntei se ele sabia o que estava acontecendo, ele me disse que tudo que aparecia na televisão era sempre a mesma coisa, oficiais e pessoas responsáveis do governo diziam que iam controlar a situação, mais cada vez mais ela ficava agravada, e agora nem mais o noticiário tinha, ainda restavam apenas dois canais no ar, e estavam passando apenas programas repetidos, no rádio nenhuma estação pegava, a internet estava fora do ar, não tinha mais comunicação, me lembrei que o Fernando havia me ligado mais cedo, mesmo tendo passado algum tempo, os celulares podiam funcionar, peguei meu celular, e tentei realizar uma ligação, mais foi sem sucesso, pedi o do Fernando mais aconteceu a mesma coisa, estavam fora de área, pedi licença ao Fernando para ir até o banheiro, quando cheguei lá, sentei no chão, sem ligar muita coisa e me despontei a chorar, e a fazer perguntas a mim mesma, de o porque aquilo tinha acontecido, quem era os responsáveis, será que era castigo divino como algumas religiões pregam?

Bem eu não sabia, mais o choro pelo menos iria me deixar mais calma, e mais forte, chorei por longos minutos até que o Fernando bate na porta, dizendo que havia conseguido se comunicar com um amigo que morava no interior, e que ele tinha dito que lá estava tudo normal, e que podíamos ir ficar com ele uns tempos, ao ouvir aquilo me senti aliviada, era uma boa noticia, e agora eu podia dizer, com certeza minha sorte estava mudando.

Estava muito tarde, já passava das 7 da noite, Fernando achou melhor partirmos ao amanhecer, pois com esse caos, a iluminação devia ter sido afetada, concordei, além disso eu estava com fome e precisando de um banho, a noite foi bem longa, pensei em muitas coisas, mais terminei adormecendo, logo pela manhã cedo, me acordei e Fernando não estava mais ao meu lado, fui até a cozinha ver se achava ele, mais ele também não estava lá, olhei por todos os cômodos da casa, mais ele não se encontrava em nenhum, fiquei assustada achando que ele tinha me abandonado, comecei a querer chorar, mais me segurei, e percebi que a porta da entrada estava aberta, de longe eu vi ele, era o Fernando, corri para o chamar, mais tive uma grande surpresa, ele se virou me olhando, seus olhos estavam vermelhos, seu rosto sujo de sangue, e o mais apavorante era que ele segurava na mão esquerda um pedaço de um braço já carcomido, fiquei muito assustada e sai correndo para o quarto, nem lembrei de fechar a porta, corri e entrei no comodo, fechando a porta bruscamente, não percebi se ele veio atrás de mim, mais sabia que agora sim, eu podia me considerar sozinha, e a sorte tinha virado um tremendo azar, não houve barulho na porta, se ele veio atrás de mim, ele não viu onde eu me escondi, fiquei lá algum tempo, e logo resolvi me levantar, pensei que podia ajudar ele, vai que eu apenas precisasse tratar ele de alguma forma, podia ser que ele nem estivesse maluco, abri a porta bruscamente chamando pelo nome dele, andei a casa inteira, mais não encontrei nada, sentei no sofá e comecei a chorar mais uma vez, estava difícil de agüentar aquilo tudo, mais o choro durou pouco tempo, logo fui até a mesa de telefone, pegando o papel que continha o endereço do amigo do Fernando, me vesti com a primeira roupa que eu consegui, e procurei a chave do meu carro, achei ela sobre a mesa da cozinha, peguei algumas coisas para comer na viagem, e sai do local, a rua estava um pouco vazia, apenas alguns corpos no chão imoveis, e outros andando mais lentamente, eles eram malucos, mais parecia que eles eram devagar, me perguntei se eles eram realmente malucos, não obtive resposta, afinal eu não sabia de muita coisa, mais sabia que eles não eram normais, entrei no carro e dei a partida, consegui mais uma vez fazer ele pegar, logo comecei a dirigir, em direção ao centro da cidade, era lá onde tinha a principal saída de acesso para o interior, e também tinha a saída secundaria, que apesar de ser de terra, mais era mais rápida que a principal, mais deixei para decidir isso quando chegasse lá, dirigi por alguns instantes, chegando no centro, muitos carros estavam amontoados lá, pessoas andavam pela rua, o trânsito estava infernal, todos queriam sair do caos, olhei e vi que pela saída principal não seria uma boa idéia, e logo tomei a secundaria, andei alguns metros, e logo veio-me um pensamento, eu lembrei do Fernando, e fiquei pensando o que haveria acontecido com ele, onde ele estaria, ou a pergunta que não quer calar, o que faz uma pessoa perder o juízo?, parecia algo contagioso, seria a infecção?, mais o Fernando não pegou ela, não que eu soubesse, bem o que eu tinha que fazer era me proteger e ver se o Fernando ainda estava vivo, ou pelo menos se estava normal, segui mais alguns metros e o carro parou bruscamente, o motor devia ter super-aquecido, não sei ao certo, sou péssima em automóveis, o máximo que sei é acender o isqueiro e fumar um cigarro, abri a porta, e procurei para ver se conseguia consertar, passei um tempo mais nada eu consegui, logo ouvi um barulho por trás de mim, virei vagarosamente, e dei de cara com uma arma apontada para meu rosto, encarei o homem por algum tempo, que logo gritou em alto e bom som; Você é um deles?, fale algo?

Não pensei duas vezes, e falei em um tom alto, Não, não sou um deles não, por favor me ajude, meu carro quebrou e eu preciso chegar até o interior para ficar na casa de um conhecido enquanto o exercito ou alguém vêm resolver o problema.

Ele me encarou e soltou um longo e alto riso, e me disse com sua voz alta e grave; Mais uma idiota que acredita no exercito, eles não virão salvar ninguém, eles tão pouco ligando para a população, todos eles resolveram mexer seus traseiros e ir salvar a própria pele, eu mesmo iria fazer isso se tivesse no lugar deles, e quanto ao seu carro, para ajeitar teria que ter algum tempo, e aqui não é um bom lugar, então é melhor pegar suas coisas e me seguir se quiser continuar viva.

Apôs ouvi o homem no seu tom sarcástico, peguei minhas coisas dentro do carro, e fui até ele, não tinha muito o que fazer, afinal eu podia pedir para ele ir embora e eu ficar, mais eu não conseguiria nem em um milhão de anos consertar aquele carro, minha praia era mesmo processos e brigas, nada de carros, mais lembrei do amigo de Fernando e logo falei para ele que meu namorado tinha um amigo no interior do estado, e que ele podia nos dar abrigo, o homem olhou para mim e disse, que se eu quisesse viver além de seguir ele, devia esquecer a idéia do interior, ele me disse que soube atravês da interceptação de freqüências de rádio da policia estadual que o interior havia se tornado um caos a poucas horas, e que a situação estava pior que na capital.

Olhei para ele, já sem esperança no rosto, não falei nada e comecei a segui-lo, fui todo o caminho até o lugar que ele pretendia me levar pensando, que a minha única esperança, havia sido dizimada, agora só me restava seguir aquele homem, que eu nunca tinha visto, e torcer para que ele me salva-se.

2008-08-27 Outros textos Rodrigo Xavier Rodrigo Xavier
0 comentários 112 visualizações 0.00 (com 0 votos)
  • Deixe seu comentário
  • Pontue este texto
    Quantas estrelas este texto merece?
  • Envie este texto por e-mail para seus amigos
  • Mande este texto para a impressora

Comentários

Nenhum comentário para este texto ainda.
Caso você considere este texto ofensivo, ou acha que, no mínimo, ele deveria estar na categoria Adulta,
clique aqui para denunciá-lo. Ele será avaliado e, se necessário, corrigido ou apagado.