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Xilogravura

Em suaves movimentos, um instrumento afiado passeando pela prancha, frisa leves traços indefinidos. Expressando passo a passo a sensibilidade do artista, que aflorando de sua alma resolve seus conflitos, traduz-se incontinente. Desvendando sua calma.

Um após o outro vai brotando sobre a tábua. Dando formas e contornos, transformando o elemento tosco. Vê-se a forma de um rosto!

Fios de cabelo, costeletas e barba, rugas e cicatrizes, pêlos nas orelhas e narinas, revelando assim uma face.

Triste e sofrida! É a expressão neste rosto nordestino sob a aba do chapéu, que sombreia sua face maltratada pelo sol intenso do agreste lugar.

Calma e serenidade habitam o rosto que de olhos firmes sobre o trabalho, parece buscar os detalhes ocultos na memória em breves pausas entre um golpe e outro.

Os traços que se formam são de um homem! Um velho de sorriso triste. Apenas um rosto. No entanto. É possível inseri-lo num cenário.

Um elemento entre outros tantos, como a enxada, o chinelo de couro, as roupas simples. Que tendo ao fundo uma planície vazia de areia e pedra em tom de caramelo, ricamente iluminada, cortada por uma estrada estreita de terra batida, onde pára o personagem! Estanca!...Enquanto espera a poeira revolvida baixar ao lado do seu burro, que se inquieta assustado pelo ronco do automóvel que passa sem parar... E num átimo, num segundo, num instante tão fecundo... Há um cruzamento de olhares.

Na memória do passante faz-se mágico esse instante, que com sigo leva esse semblante que perturba seu imaginário. Sua agucia se atenta para os detalhes, que a maioria dos olhares que o fitam não poderia notar... Mesmo os que convivem no mesmo espaço com o velhinho que passava ali sozinho, percebem os traços que a goiva vai frisar. Posto quê... Subjetiva é a imagem gravada na matriz, não é um retrato fiel, os traços emoldurados no quadro em minha parede, não são o rosto do velhinho a beira da estrada... São lembranças do passado, que por pura analogia aos sentimentos que fluíam enquanto a goiva passeava, tornaram-se um terceiro elemento.

Que aos olhos do observante enquanto apenas uma imagem... Nada mais é que um adorno, que por obrigação não pode destoar dos objetos que o cercam, nem discrepar nos tons e cores ou nos formatos ocupando uma posição estrategicamente adequada na parede.

Mas... Enquanto obra! Produto de um trabalho. Inspiração do intelecto e habilidades manuais... Arte! Poderia ocupar um espaço na estante entre os meus livros... Sim, afinal... Atentando-me para os detalhes expressos nessa obra, viajei pelo sertão.

Conheci um sertanejo que batizei de João! Quase pude sentir o cheiro do seu cigarro de palha, ouvir o vento seco soprando entre as palmas que protege com ferozes espinhos o pouco verde do lugar, vi!...Sob o sol quente à sombra da aba do chapéu... No semblante de João, nessa terra de coronel... Que a vida embora seja dura não é amarga! Nem tão pouco doce como o mel.

A vida é uma peleja, e por pior que ela seja... Mesmo neste corpo que se arqueja com o peso do seu fardo, ainda há graça para um sorriso, embora amarelado de lábios quase cerrados... Vê-se um brilho de felicidade.

2008-08-08 Outros textos Jaime Aparecido Donizeti Privatti Jaime Aparecido Donizeti Privatti
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