SUPER Textos

Vitório

Eu tinha tudo para dar em nada. Negro, pobre, nascido em uma enorme favela, obra (eu) de um encontro indesejado de minha mãe com um reprodutor qualquer; soube depois que ele já tinha mais três filhos por aí. Como minha genitora iria perder toda a sua juventude por minha causa, jogou-me nos braços de minha avó, uma senhora nervosa que se irritava até mesmo com o miado de um gato no telhado.

Comecei a crescer solto pelos bairros da periferia da cidade. Minha avó queria ver o diabo mas não queria ver a mim, eu era um estorvo para ela; como minha mãe estava "casada" com outro cara, e ele não gostava de mim (acho que não era só ele), era impossível pensar na idéia de ter um lar como fiquei sabendo ter direito devido a um tal Estatudo da Criança e do Adolescente.

Passei fome. Dormi nas ruas. Não ia pra escola. Brigava com os moleques da rua, os quais tinha como meus amigos, estávamos no mesmo barco, sem eira nem beira.

Por sorte, em uma bela manhã de sexta-feira, já não comia nada havia dois dias, uma bela senhora veio em minha direção e me perguntou o que eu fazia sozinho nas ruas, tinha nove anos. Disse-lhe que não tinha família. Ela deu-me um sorriso, não soube interpretá-lo na hora, mas hoje sei que era um sorriso amigável. A bela senhora interrogou-me, em um pequeno restaurante da região, sobre minha origem; contei-lhe toda a minha história. A bondosa quis saber se eu desejava ter uma família de verdade. Fiquei sem resposta por alguns minutos, analisando sua pergunta e seu perfil: parecia ser uma mulher rica, estava muito bem vestida, falava como uma dourota das palavras.

Fui levado para casa de dona Aura. Passei a ser tratado como um rei. Tive professores particulares até poder ir para um dos melhores colégios do Rio. Meu pai, Antenor, levou-me pra conhecer a Europa, onde estudei outros idiomas. Nunca imaginei que minha sorte fosse mudar tão bruscamente. Graças a desgraça desta família não poder ter filho, tive a graça de encontrar um lar.

Hoje tenho 23 anos, faço faculdade de publicidade e agradeço a mulher que me trouxe ao mundo por ter me dado o nome que tenho. Nunca mais tive notícias dela, muito menos da senhora que me "criava". Estou envolvido em projetos que cuidam de crianças de rua e sempre dou vivas por minha sorte ter sido outra.

2006-03-18 Outros textos José Augusto José Augusto
0 comentários 434 visualizações 0.00 (com 0 votos)
  • Deixe seu comentário
  • Pontue este texto
    Quantas estrelas este texto merece?
  • Envie este texto por e-mail para seus amigos
  • Mande este texto para a impressora

Comentários

Nenhum comentário para este texto ainda.
Caso você considere este texto ofensivo, ou acha que, no mínimo, ele deveria estar na categoria Adulta,
clique aqui para denunciá-lo. Ele será avaliado e, se necessário, corrigido ou apagado.