Um dia no futuro ou no presente
- Quem foi Cristo?
- O quê?
- Quem foi Cristo?
- Porque pergunta? Não sabe que é proibido falar o nome deste senhor?
- Eu sei.Por isto estou perguntando.
- Menino, a simples menção deste nome pode gerar um revolução no mundo,
eles levaram tanto tempo para tirá-lo da memória do povo, usaram tantos
artifícios, gastaram tanto dinheiro?
- Quem foi cristo?
- Já que insiste,cristo foi um filosofo.
- Só isso? Quantos filosófos existem, milhares talvez, isto não
justifica seu nome ser proibido, sob pena de morte para aqueles que simplesmente
o pronunciassem.
Aquele garoto pertubava-me, os seus olhos extremamente azuis confundiam-me,
a tristeza estava marcada em seu olhar,
tudo isto,
aquelas perguntas, aquele jeito, fez dominar-me uma forte emoção,
que penetrou meu corpo, oprimiu meu coração, e eu não resiste.
- Quer saber mesmo quem foi cristo?
- Quero,respondeu ele, com seu jeito de criança.
- Cristo foi um grande homem, um grande filósofo,
o maior pacificador que o mundo conheceu,
o maior entre os maiores,
quando todos falavam de guerra, ele pregava a paz,
quando todos só sabiam matar, ele dava a vida,
quando todos viam o mundo perdido, ele dava esperança com suas palavras de amor e fé.
- Não entendo. O que é amor, fé, esperança?
- Amor,fé, esperança, eram sentimentos além da razão, impossíveis de serem controlados
ou medidos, vinham do fundo da alma, de dentro do coração.
- Sentimentos?
- Sim, sentimentos, esta força, que era tão forte, que foi considerada perigosa,
e sua eliminação foi necessária, pois com ela, os homens jamais seriam controlados.
- Moço, eu tô sentindo uma coisa estranha, uma dor forte no peito,
moço, tá saindo água nos meus olhos.
moço, será que estou doente?
- Não, você não está doente, isto é sentimento, é emoção, você está chorando,
antigamente podia-se chorar livremente,
hoje é proibido,
é sinal que eles fracassaram na luta contra a alma e o coração dos homens.
- Sabe moçõ, eu não consigo segurar, é tão forte, e dói tanto, e ao mesmo tempo é tão bom,
ninguém antes tinha me falado nada disto que o senhor me falou,
uma coisa nova tá querendo crescer dentro de mim, eu não sei o que é,
eu só sei que eu sinto.
- tome cuidado meu pequeno amigo, se descobrem, estamos nós dois perdidos.
Muito tempo se passou, aqueles olhos azuis continuavam em minhas lembranças, aquelas lágrimas,
as primeiras de uma vida, fizeram-me voltar a sentir o amor, a ter esperança na humanidade,
nas pessoas.
Os anos foram passando, até que um dia uma voz calma, tranquila, mas firme, chegou até a mim,
era como um sussuro, eu escutava mas não entendia direito o que dizia, mas aquela voz eu conhecia,
tinha certeza.Procurei, olhei em todas as direções, quando no meio da praça meu olhos encontraram
o dono da voz, um rapaz de cabelos longos, barba mal feita, mas o que mais me chamou atenção,
foi quando meus olhos encontraram seus olhos, eram olhos estranhamente azuis.
Num segundo, da minha memória saltou, a lembrança daquele menino que me perguntará que tinha sido
Cristo.Parei então estarrecido e embevecido com suas palavras:
- Por quê têm medo de voltar sentir a emoção? Pois é isto que dá sentido a vida, sem isto não temos
espírito, não sentimos a beleza existente em qualquer coisa, não sabemos o que é gostar, nem teremos
vontade de sermos gente.
- Por quê acovardam-se?
- Por quê perderam a fé?
- Não existe arma que possa destruir os ensinamentos de Cristo, nem a fé que ele nós ensinou a ter.
- Cristo nós ensinou sem pedir nada em troca, sem exigir nada,
a não ser que fóssemos homens, e nós amassemos, todos, sem exceção.
Uma emoção, o choro
tomou conta de mim ao ouvir tais palavras,
mas no fundo o medo fazia-me calar.
De repente, uma viatura atravessou a avenida velozmente,
dos seus auto-falantes saiam vozes alucinada,
que gritavam a plenos pulmões:
- atenção, não dêem ouvidos a este sujeito,
ele acabou de fugir de um hospício.
Ao mesmo tempo, de dentro da viatura saiam vários enfermeiros,
que agarraram o rapaz,
prenderam-no em uma camisa de força.
A seguir, dezenas de carros de políca, tanques do exército apareciam,
como se fosse estourar uma guerra.
O povo olhando, sentindo no coração a verdade das palavras do rapaz de olhos azuis,
mas, como eu, estático, sentindo o medo da repressão.
Algumas semanas depois, os jornais traziam, em folhas bem escondidas,
a morte de um interno em hospício da capital,
por excesso de droga.
Na fotografia do jornal, o olhar confiante, de vitória,
como se desafiasse o mundo,
do rapaz de olhos azuis.
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