um natal milionário
José estava cansado, o corpo doía. Trabalhou tanto neste ano que chegava ao fim. Não teve tempo de ver o ano passar, não teve ânimo para contar os meses, não sabia ao certo se seu décimo-terceiro do salário estava correto, não sabia fazer contas complicadas e, apesar de não confiar em quase ninguém, estava sem causa justa para reclamar o pouco que acabava de gastar.
Ele estava exausto, a garganta doía. Não que tivesse amídalas inflamadas, mas tinha febre. Engoliu tantas durante o ano inteiro... Foram incontáveis humilhações, muitas em rede nacional, outras na mesa de casa, posta com pratos triviais, muitas vezes sem acompanhamento. As piores nos olhares frios dos letrados Doutores que lhe atribuíam tarefas e nos olhos dos seus filhos, que em todos os bimestres deixaram de entregar trabalhos extra-curriculares por falta de materiais.
Ele soltou uma lágrima de tristeza e revolta, que lhe ardia a pele do rosto queimado de sol. Não que não estivesse acostumado com a ardência de suas inconformidades, de suas impossibilidades, mas não soube contar as vezes em que ouviu, na madrugada, os gemidos abafados de sua mulher, Maria, com dores por todo o corpo, de tanto esfregar azuleijos e roupas das casas das esposas dos Doutores de olhos de mármore.
Olhou em volta de si e passou seu pensamento, sem o saber explicar, pelas pessoas atrás dele, à espera do mesmo ônibus, e nas outras filas, para os que esperavam por outros intinerário,s para os quais também não se tinha certeza de chegada, assim como não tiveram a certeza da partida. A mocinha ligava do seu novo celular com câmera, pedindo para uma amiga que a esperasse, pois queria mostrar a novidade que ganhara de Natal. Um Senhor de idade avançada dormia em pé. Uma criança não tirava os olhos da pastelaria. Um homem tentava assunto com a mulher de saias curtas à sua frente. Montes de corpos aglomeravam-se em expectativa de acolhida no lar, ou bar, ou em lar de outrem. Era dia vinte e quatro de dezembro e todos queriam chegar, fosse sem destino certo, em qualquer lugar. Voltou-se ainda sem saber fazer contas complicadas e, desta vez, olhou para dentro de si.
Soltou outra lágrima quando sentiu novamente o peso dos poucos pacotes que carregava: uns brinquedinhos de plástico, um panetone, frango assado, farinha, uma blusa florida. O peso estava demasiado e ele não segurou mais o choro, que, desta vez, era comoção. Havia muita riqueza ali, contida nas sacolas em suas mãos, que junto aos produtos escolhidos por ele nas lojinhas humildes em que entrou, fariam vastos espantos, enormes sorrisos de contentamento, altas gargalhadas de alegria, mares de lágrimas de felicidade, ternos abraços, estômagos satisfeitos e noite que seria comemorada em grande estilo.
Continuou sua ida, com rumo e tropeços certos, a fila andando, sem entender o real porque da comemoração para o próximo amanhecer. Era pouco o que sabia ler. Lembrava de algumas histórias sobre a verdadeira necessidade de exaltar aquele próximo dia e uma vontade quase incontrolável se apossou dele, que era o próximo na roleta. Foi por pouco que José quase abraçou o cobrador do ônibus, para desejar-lhe um feliz Natal e um próximo novo repleto de vontade em olhar, com boa vontade, para o próximo.
Denise Machado (Vírgula Antenada)
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