Um encontro no consultório médico.
Havia até conquistado uma relativa estabilidade financeira, um bom consultório para atender, pelas manhãs, alguns poucos pacientes preocupados, aparentemente, com a saúde. Possuía, também, um notório casamento. Não sabia se era uma união por amor ou comodismo, mas existia. Tinha um carro popular vermelho do ano e, finalmente, realizava o seu sonho, estudava música.
Era uma quarta-feira comum, havia chegado um pouco mais cedo a fim de trabalhar, trabalhar e trabalhar. Pegara as fichas de seus pacientes do dia, cumprimentara sua imbecil secretária e foi direto para sua sala. Situa o ambiente com um de seus cd’s favoritos de música clássica, endireita a temperatura, mais ou menos 19° C, desta forma, seu corpo conseguia oscilar entre o frio e o calor. Ligara todas as luzes e acendera um incenso de sândalo, respirara profundamente o ar e avisa que o primeiro paciente já pode entrar.
Entrara o primeiro, saíra o segundo... O dia não tinha nada para ser diferente, muito pelo contrário, tudo soava na maior mesmice de sempre. Porém, no paciente seguinte o seu nome lhe era familiar. Sim, ele exaltava algo que antes já havia sentido. Deixa de lado o seu sexto sentido e manda-o entrar.
- Bom dia, doutora.
Ela estava meio de lado, trocava a faixa de música, colocava um som celta e rapidamente vira-se para cumprimentar mais um paciente. De repente, percebe que ele era justamente aquele. Aquele rapaz com que ela tivera um causo na adolescência. Na verdade, meio caso, se é que pode dizer isso.
- Bom, dia! – Sorri brevemente com um desejo profundo de que ele lembre-se dela.
- Você? Acho que a doutora não lembra de mim.
- Ah, como poderia esquecer de você, rapaz. – Continua abobalhada com a surpresa, mesmo assim tenta agir profissionalmente e deixar de lado as suas lembranças. – Sente-se, fique a vontade. Como vai? Ah, que pergunta! Já que está aqui, provavelmente algo de errado acontece...
- Por incrível que pareça, vim aqui apenas para fazer um checap. Sinto-me tão bem como nunca. E você também parece estar super bem, certo?
- Quem sabe, quem sabe. Mas fale-me um pouco de você. Muito tempo que não nos vemos. Concluiu o curso? E sua banda, ainda existe?
Ele começa a falar dos últimos anos de sua vida e neste momento ela é tomada por uns segundos de paralisia e fica a observa-lo. Olha-o, tenta decifrar o seu olhar e, incrivelmente, percebe que continua com os mesmos segredos de antes. Seu corpo ficara mais forte, mais saliente. Seu perfume continuava o mesmo, aquele cheiro forte invade os seus sentidos e a faz sentir leves arrepios. O seu sorriso, ainda mais brilhante, lhe fascina. Ela não conseguia entender o que ele falava, estava entregue aos seus instintos.
Fica sorrindo o tempo todo, até que ele interrompe o seu momento de regozijo.
- Desculpa, acho que estou te irritando com esta conversa monótona de trabalho e estudos.
- Não, imagina. Estava até gostando de saber.
- Sabe, estou inebriado por você. Desculpe-me por isto, como vejo, você já é uma mulher casada e deve estar cansada de receber elogios assim todos os dias. Mas não tenho como conter o que sinto.
Ela não sabia o que responder, nem ao menos conseguia respirar direito. Ele conseguira traduzir o que ela sentira por ele. Um extasiar. Enquanto ela ainda pensa em qual resposta lhe dar, ele levanta-se da cadeira e segue em sua direção. Neste momento, seu corpo estava entregue e sua mente não sabia agir. Ele estende sua mão na direção dela, em um ato convidativo para ela se levantar daquela cadeira um tanto desconfortável.
Sem muito pensar, ele trança seus braços sobre seu corpo, pressionando, assim, um corpo ao outro de tão forma que se era possível um sentir o palpitar acelerado do coração do outro. Ele afasta os seus cabelos e cheira-lhe o seu pescoço com tanto desejo e profundidade que sua respiração, neste momento, fica arquejante, quase fúnebre.
Ele a prende com mais força e a beija. Um beijo muito, mais muito intenso. Sua língua não mediu esforços para adentrar em sua boca. Parecia que ele procurava algo e que só encontraria em seus lábios. Ela nem sabia como agir, e nesta total inércia entrega-se por completado ao desejo veemente dele e, também seu. Lembrava-se, apenas, que o gosto de sua boca continuava com o mesmo gosto de pastilha. O beijo parecia não acabar. A intensidade ia aumentando, os anseios se exaltando e ali mesmo ele a possuiu por inteiro. Não queriam saber de tempo, de seus compromissos, o mundo tinha se tornado coadjuvante.
No fim, eles começam a rir demasiadamente e se olharem excessivamente.
- Fala-me uma coisa, porque todo homem tem que cantar toda mulher?
- Não sei, pode ser a testosterona! – Diz ele fechando o zíper de sua calça.
- É bom procurar um médico pra isso também, não acha?
- A gente vai se ver de novo?
- Pro seu próprio bem, é melhor não.
- Volto para me consultar de verdade. Sempre soube que você teria o dom para a medicina.
- Sempre soube que você tinha o dom para ser homem*.
*Homem : do Latim homine. subs. masc., animal mamífero, bípede, irracional e insociável que, pela sua inteligência e pelo dom da palavra, dentre outras qualidades, não se distingue de outros seres organizados; pessoa adulta do sexo masculino;
--> M. [doc] B.
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