Trinta e três
Naquela cidade ele era um estrangeiro. Não conhecia nada nem ninguém. Mas isso não seria empecilho, visto que os habitantes daquele pacato lugar tinham a facilidade de conhecer cada morador e seus modos.
O que o levara a mudar-se para ali tinha se tornado conhecimento de todos em dois tempos: não agüentava mais a agitação da cidade grande, a violência, entre outros aspectos negativos.
A paradisíaca Águia do Norte, que ficava no sul de Minas, tinha uma população acolhedora, porém uma lenda que assolava a todos há mais de cinco décadas. Diziam que nenhum varão passaria dos trintas e três anos se os completasse e vivesse naquela cidade. Desta forma, não havia ali nenhum homem com tal idade, dado confirmado por Roboão. A citada maldição foi lançada por um padre que ali viveu durante meses, por ter um segredo (o qual ninguém tinha audácia de revelar) escancarado para todos durante uma missa.
— Mas, o que ocorre para haver aqui homens com 34 anos? — perguntou ele, inocentemente, a um morador antigo.
— Eles saem daqui para outra cidade da região, onde vivem por um ano e depois voltam.
— De fato alguém faleceu? — interessou-se Roboão.
— Sim — interferiu uma anciã — um neto meu morreu de rubéola e um filho da minha vizinha foi chifrado por um boi manso. De lá para cá, ninguém mais quis se arriscar.
Saindo dali, Roboão lembrou-se de um fato em que soldados montavam guarda diante de um banco já velho. Sempre havia ao seu lado uma sentinela. Um coronel, recém-nomeado para o batalhão, foi investigar o porquê desse absurdo. Depois de muito pesquisar, descobriu que, após pintarem o banco, colocou-se ali um guarda para evitar que alguém se sentasse na tinha fresca, o que gerou um costume.
Contudo, a lendária maldição tinha um efeito na vida de Roboão: completaria trinta e três anos no mês seguinte. Mesmo que não fosse dado às superstições, a rapidez com que o tempo passava e seu aniversário se aproximava estavam tirando seu sono, mais do que quando perdera o emprego no Rio de Janeiro, com o financiamento da casa para quitar.
Chegado o tão esperado dia, todos os moradores acorreram para sua casa a fim de conhecer qual seria sua decisão. Os mais fiéis aos costumes do lugar chocaram-se ao saber que aquele forasteiro iria quebrar uma prática quase que religiosa.
— Roboão, você tem certeza de que está tomando a decisão acertada? — atemorizou-se sua esposa.
— Dulce, tudo o que eles me falaram eu chequei. Não passa de coincidências. O rapaz que morreu de rubéola havia acabado de chegar de uma região surtada com um vírus da doença. O moço que foi chifrado levou o animal à fúria por métodos nada convencionais.
“Desta forma, continuou ele, nada passa de uma série de acontecimentos colaboradores para um povo amedrontado por um padre excomungado pela igreja havia mais de dois anos”.
— Por que você não expõe essas informações à população?
— Porque eles estão tão cegos em sua crença que não me escutariam.
— Sendo assim, você não precisa temer.
— Meu temor é pelo fato do poder que a mente das pessoas possui.
Doze meses mais tarde, no seu trigésimo quarto aniversário, Roboão relatou todas as suas descobertas aos habitantes, o que lhe rendeu a prefeitura da cidade por livrá-los de jugo tão grande.
José Augusto G. de Almeida em: http://amoraspalavras.zip.net
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