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Traga-me para a Vida

Traga-me para a Vida

Arrisquei olhar para novas direções.

Todas elas me levavam ao impulso da pirâmide se fechando. E eu queria ser livre.

Meus dedos tremem, meus olhos se abrem e se fecham, e tudo permanece no mesmo lugar para os outros, mas não para mim. Tudo muda. Tudo muda em milésimos de segundos.

Eu sinto o que os outros sentem.

Eu não estou mal. Meu dia foi bom, eu aprendi muita coisa, eu trabalhei talvez como ninguém tivesse trabalhado antes, eu sorri como não tinha sorrido na semana, e dentro daquela comunidade, daquela multidão, com diversos sentimentos a minha volta, eu senti, mais uma vez, coisas assim, um tanto quanto impossíveis.

Minha mente não foi rápida o suficiente para registrar cada sensação, então posso ter perdido um pouco daquelas pessoas, e daquela janela, daquela imagem na janela que não esqueço, daquela vertigem ao sair da comunidade, daquele microfone com a voz lírica. Meu olho agora pisca, freneticamente.

De todas as pessoas que colhi a alma, de cada vez que uma saía da comunidade, eu recebia uma freqüência. Senti um fio de cabelo meu, sair da posição vertical para horizontal, ao passar de uma delas, não era freqüência negativa, e talvez não fosse positiva, apenas era uma energia que eu captava.

Bring me to life.

Traga-me para a vida.

E aquela imagem da janela, gritando por socorro.

Dizendo para que entrasse em seu universo.

Pedindo para que respondesse seus comandos.

Rezando para que minha vida fosse uma das freqüências, uma freqüência cruzada.

Perdi a imagem por alguns instantes, e subitamente as luzes ecoaram em um só escuro.

Toda vez que estabeleço a meus olhos cansados uma sensação de liberdade, a imagem volta. Ela volta. Assim como na janela, respondendo uma respiração. Ela pede que seja liberta. Ela pede que seja clara como o dia. Não quero visões da noite. Eu não escolho as coisas certas por propósito, são as sensações que escolhem por mim, e escolhem com uma precisão fantástica.

Em todas as comunidades, móveis ou fixas, eu recebo energias. Eu sinto muitas coisas, e todas ao mesmo tempo, posso gritar coisas sobre coisas, e sobre pessoas, e sobre mundos, e sobre tudo.

Bring me to life.

Traga-me para a vida.

A comunidade desapareceu. As pessoas desapareceram. As freqüências e as energias. Mas a sensação continua comigo. A sensação de estar presa nos sentimentos dos outros, de estar em uma cratera com muitas cabeças, sorrindo e chorando ao mesmo tempo para mim. Elas pedem para que as siga.

As pessoas desapareceram. As freqüências e a comunidade. E neste momento percebo que a imagem na janela era meu reflexo. Liberte-me.

2005-08-23 Sentimentais Josiane Andréia Ruhmke Josiane Andréia Ruhmke
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