Tá me vendo?
Ei, eu ainda tô aqui tá?
Porque passa por mim como desapercebido?
Não sente esse frio que passa pra você quando chega perto do meu abrigo?
Aqui tá tudo tão gelado, o suor da minha testa escorre como gotículas de gelo no chão, se quebrando junto com as lagrimas e o meu coração.
Eu tô aqui, parado com um terno e uma gravata, descalço, mas com uma rosa na mão, encostada no lado esquerdo do meu peito, sem me mexer, esperando pra ver se você nota que a rosa que eu trago é pra você.
A única coisa que se mexe são meus olhos, que ficam te seguindo pra onde você vai, mas ei, quem é você?
Não consegue me enxergar aqui?
Não sente o meu gelado?
Não vê a fumaça que solto da minha boca?
Não sente o cheiro e a brisa dela?
Eu ainda tô aqui, e quem é esse cara que você passa de mão dada do meu lado?
Eu aqui continuo parado com a minha rosa, agora com cara de palhaço.
Sempre fui palhaço, mas ninguém sabe o que ele leva para os bastidores.
E quando eu não estiver mais aqui?
Você vai perceber?
Ou pra você sou só um manequim parado ao seu lado com uma rosa na mão, a rosa que era vermelha e viva, tá ficando preta e murcha.
Eu to aqui ainda, por pouco tempo, tentando entender, porque minha boca está colada, meus lábios não abrem para proferir nenhuma palavra, a única coisa que pode abri-La é sua saliva, tocando meus lábios suavemente, transformando o que eu tenho na cabeça em uma verdadeira mente.
Mente?
Será possível que você não sente?
É tão frio, quem passa do meu lado treme, você sua, será que eu sou a lua e você o sol, o seu calor prevalece e quebra o gelo que tem dentro de mim.
Será possível o sol se juntar a lua?
Minha frieza é da mais pura, pura lealdade ao o que me mantém vivo, mas parado, frizado.
Eu não tô mais aqui, a rosa já morreu, e você?
Você nem me percebeu.
Rafael Américo
2/04/08
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