quando os véus caem
extraido do livro´´os magos de sant´ana-autor ruy crespo filhoQUANDO OS VÉUS CAEM
"o cabelo crescido foi dado em lugar do véu, então o
cabelo crescido na mulher é o próprio véu"
Espanha 1585
A jovem Consuelo gostava de encerrar o dia como cafetina do bordel do tio indo à igreja para agradecer a Deus, mas aquele dia era diferente. Existia uma promessa de algo novo no ar.... uma força estranha! Ela era sensível, intuitiva. Percebia que aquela força mexia com ela. Não temia o santo inquisidor. Ele podia ser até duro, cruel com as bruxas e com os hereges, mas era um santo.... o Santo Inquisidor! Que olhos azuis! Suas mãos eram delicadas, pequenas, pura seda.... imaginou ela a suavidade sensual do tecido a passear pelo seu corpo nu. Aparentava ter uns trinta e cinco anos. Mas o que é a idade para um santo inquisidor?
Ao entrar na igreja, fora logo notada principalmente pelos homens.
Trajava um elegante vestido bordado pelas poderosas agulhas de ouro de Luana., a Santa dos bordados. Mas voltemos a essa criatura deslumbrante. Ah! O véu branco leve e claro, claro e leve, encobria uma parte da sua face deixando à mostra apenas o cordão com o crucifixo entre os seios. Caminhou elegantemente ao altar da virgem e
ajoelhou-se. Fez o sinal da cruz e começou a rezar. Levantou e caminhou até o confessionário. Cada passo que dava marcava com descompasso às batidas frenéticas do seu coração. Suas mãos suavam...um calor inesperado invadiu seu corpo de mulher! Suas pernas começaram a tremer. Era uma sensação estranha, mas muito prazerosa..
Sim, ela nunca tinha passado por isso em toda a sua vida. Sentou no pequeno banco do confessionário, a cortina se abriu, dando para perceber a silhueta do seu confessor.
--Reze comigo agora a oração que o teu pai ensinou.
Ela cobriu a cabeça e a face ficando à mostra apenas um simples crucifixo. O inquisidor quebra o silêncio com sua voz doce, suave, so-le-tra-da.
--- Qual o pecado que achas que cometeste, minha criança?
As suas pernas tremeram.Será que ele percebeu os segredinhos tão bem guardados da sua alma e do seu coração?
Ele foi enfático.
--Por acaso este corpo angelical é capaz de pecar?
A voz de Consuelo saiu fraca e quase inaudível.
--- Talvez meu santo inquisidor o pecado da intenção....
--- Como assim?
---É meu desejo me libertar das correntes da prisão.
---Oh! Minha criança, a prisão é uma mentira! Acredite, a verdade ter libertará!
---Oh!Meu santo inquisidor...
--- Qual é a dúvida?
---A incerteza de poder chegar até o final de um caminho tão desconhecido.
--- Não temas! Não temas! Per-ce-ba,perceba! Quando o caminho e o caminhante se tornam uma unidade, a incerteza desaparece e as correntes são quebradas.
--- Então eu preciso também morrer para renascer na morte que liberta?
É como o despontar da linda primavera, meu santo...inquisidor?
-- Mais do que isso. Por acaso a semente e a terra não se comungam?
Isso é criação, transformação do pensamento em vida de uma coisinha tão pequenininha. Se abra minha Consuelo como um botão, para que possa ser colhida.
--- Mas eu tenho tanto medo, as rosa são tão frágeis....
--- Nem sempre, nem sempre minha cara, elas são belas, mas também têm espinhos e podem ferir até de morte.
--- E se os espinhos forem retirados, que mal pode cometer contra o que vier colhê-la?
--- Neste caso, o caminho estará aberto para ser desvendado em toda a sua plenitude.
--- Como posso ter certeza que na escolha desse caminho não serei abandonada?
--- Através da fé. Acredite! Acredite! A fé remove tantos obstáculos.
Tendo fé naquele que te compreende e te revela através de parábolas o teu infinito amor
---Mas se os que amamos são fornicários ou celibatários não estarei caindo em pecado?
--- SIMMMMM! Isto está canonicamente correto! Mas há de convir que estamos tratando da castidade. Percebe? Olha, fiques tranqüila sempre que vieres até mim em confissão eu te perdoarei
.---- Diga-me, então, santo inquisidor, se eu agir fundamentada na castidade dos que se amam poderei seguir por esse caminho e o véu que encobre a minha face será intocável?
--- Ah! Este teu véu branco, claro, claro, leve como as nuvens brancas do céu parece até uma revelação.O que está ocorrendo aqui na verdade é uma aliança.
---Mas eu sou tão solitária...
---A tua solidão, a cada passo que der rumo ao seu caminho; por certo a solidão ficará para traz. Sabe, o casamento com pessoas escolhidas e abençoadas pela Igreja de Deus é um fator divino que o intelecto humano não consegue explicar.
-- Será por isso, santo inquisidor, que os amantes quando querem explicá-los é porque o amor já morreu?
--- Sim, está correto. Mas vale acrescentar que o senhor tem um plano divino para cada um de nós. Falo por experiência própria como intermediário da sabedoria divina que é preciso estar atento para ver e ler o que as mãos divinas escrevem .Para você em determinado instante este plano se tornou uma dúvida cruel. Mexeu com você a ponto de trazê-la até mim e abrir esse coraçãozinho. Percebe agora que você passou a enxergar a essência desse sentimento?
--Sendo assim, santo inquisidor, fixa os teus olhos nos meus.
Ele a olha carinhosamente...consagradamente. Consuelo continua;
--- Acalenta a minha alma e o meu corpo com suas orações.. Diante de ti me curvo para viver a minha confissão.
Ele sai vai até ela e deposita ritualisticamente em seu colo uma orquídea.
Ela pergunta com espasmo e admiração.
-Que orquídea maravilhosa ! Vou levá-la para enfeitar e perfumar o meu leito. Como é chamada?
--- Na França ela é conhecida como testicule di patre, que significa graciosamente de testículo de padre.
Naquele momento o véu branco e claro, leve e claro que encobria a cabeça e uma parte da face de Consuelo cai e mostra de uma maneira sutil os seus lindo seios duros, bicudos como ele tinha imaginado. Com sua voz calma ele finaliza:
--- A tua confissão é um novo despertar .
O santo inquisidor pega o véu branco de Consuelo. Suas mãos se tocam.
Os olhos verdes de Consuelo apenas confessam...nos gestos claros, leves ... leves e claros..
Texto extraído do livro "O Mago de Santa Ana " – autor: Ruy Crespo Filho
Ruy
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