O dia em que o dinheiro deixou de existir
Naquela manhã, Dólar acordou com ânimo diferente dos dias anteriores. Demorou quase uma hora na cama, parecia que havia levado uma surra de cobertor, talvez pressentindo o que estava acontecendo no seu mundo, aliás, no mundo de todos, mas o dele era especial, como afirmava sempre nas reuniões com donos de outros bancos
Quando pôs os pés no chão, deu seguimento ao ritual costumeiro: ligou a tv para ver as notícias da economia, acompanhar as bolsas dos outros países. Levou um susto que chamou a atenção da esposa, que estava na cozinha, e de seus filhos, que se preparavam para ir para a escola.
A chamada da matéria (O DINHEIRO NÃO EXISTE MAIS) ecoou no seu cérebro financeiro por segundos, mas pareciam séculos. Ele nem deu tempo para o jornalista explicar a notícia, pegou o telefone e começou a ligar para todas as suas fontes. Esqueceu-se até de que tinha um setor em sua instituição especializado para fazer checagens no mercado global.
Confirmada a tragédia, de que o dinheiro havia evaporado, tentou se recompor do susto e pôs-se a maquinar o que iria fazer sem seu bem maior. Ele respirava dinheiro. Ele comia dinheiro. Só não produziu um colchão recheado de notas verdinhas porque sua esposa impôs barreira, aliás, fora ela a dona da alcunha do marido, posto que o danado vivia em prol da moeda americana. A nacional era imediatamente convertida na outra.
Nem bem a manhã acabara e seu estado de nervo já havia oscilado o suficiente para uma intervenção externa. Mas relutava com diálogos infundados dizendo que estava tudo sobre controle.
Para acabar com pouca esperança que sobrara, foi ao seu cofre e deparou com um rombo inquietante. Como iria saciar seu desejo de ser o homem mais rico do mundo. Já estava em quinto lugar no seu país. Com a ajuda dos políticos que patrocinava, iria ser fácil chegar ao topo.
É, mas parece que a sorte havia mudado. Não só ele, mas outros milionários perambulavam pelas ruas da metrópole procurando algo que haviam perdido em outro lugar. Os pobres? Nada tinham a reclamar, era indiferente a existência ou a inexistência do causador de tanta desgraça.
— Os assaltos vão acabar — disse um.
— Narcotraficantes terão mais dificuldades para manter a criminalidade — aliviou-se outro.
— Perdi tudo — choramingava Dólar, destoando da manifestação da multidão.
Até que alguém tivesse uma idéia sensata: “Vamos voltar a viver à base de troca.”, os favorecidos de antão se sentiam injustiçados e, os injustiçados de há poucos dias se sentiam aliviados do julgo a que estavam sujeitos devido ao mundo globalizado.
José Augusto G. de Almeida em: http://amoraspalavras.zip.net
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