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O bingo e o garoto

A mãe mandou o moleque mais cedo para o ponto. Havia inauguração no pedaço: um bingo muito moderno, só pra gente grã-fina. Antes lá no prédio funcionava uma loja de móveis.

Mais que depressa, o garoto saiu pra ficar na esquina por onde os carrões iam passar. O pobrezinho nem foi à escola, só de ansiedade pelo evento, como se ele fosse um dos holofotes que iria brilhar no céu sem nuvens de São Paulo.

Caiu a noite e a festa começou a mostrar sua pompa: carros e mais carros importados estacionaram enfrente ao SENHOR bingo, no prédio de estilo colonial. Luzes e raios lasers enchiam os olhos da pobre criança que tinha apenas luz de vela em casa: havia meses a companhia fornecedora de eletricidade cortara o fornecimento por atraso no pagamento por mais de dois anos. Pelo menos em alguma coisa a mãe podia se gabar: não devia tanto tempo quanto ao MASP; o que não entendera era o fato de dever menos tempo e já estar sem luz há quatro meses.

Pivete, como passou a ser chamado pelos seguranças da casa de jogos, ficava na espreita, contando com o bom coração de algum cliente que lhe desse nem que fosse uma nota de um real, mas, pelo visto, ninguém ganhava, só perdia, saíam dizendo que não tinham nada, ou era enrolação da grã-finagem?

De tanto insistir com os gastadores, o gerente da recém-inaugurada casa se viu obrigado a pedir aos brutamontes da entrada que expulsassem o intruso dali, pois poderia espantar a clientela seleta.

O pusilânime atravessou o cruzamento. Sentou-se na sarjeta. Olhou todas as luzes reluzindo nos céus. Virou-se para sua “casa”, onde havia apenas escuridão, abaixou a cabeça e chorou. Apenas chorou, pensando que uma daquelas luzes que alumiavam o céu da metrópole estivesse no seu quarto para espantar o medo que ele tinha do escuro.

José Augusto G. de Almeida em: http://amoraspalavras.zip.net

2006-06-08 Outros textos José Augusto José Augusto
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