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O vendedor de sonhos.

O caipira vinha sozinho à beira do caminho poeirento e tortuoso.

Pé descalço, sacola na mão - quase vazia como sempre - feliz, porém, como só ele sabia ser. Alma limpa, peito aberto, pés rachados, rosto vincado.

- Amarguras... Ah... São coisa para quem tem tempo, quero só viver, disparava ele nas horas que lhe pediam explicações. A vida é curta!

Ao longe vê um vulto e procura identificá-lo.

Quem se amuaria nestes cantos, perguntou-se...

Passos sem pressa no destino foi delineando o solitário: arquejado, cabelos brancos, tez desgastada, imberbe, olhar sem brilho embora não parecesse velho. Ouvia resmungos quando dele se aproximava.

- Bastarde cumpadre. Precisa ajuda, falou o caipira.

- Como ousas, mequetrefe, brandiu a voz rouca do estranho.

Mequetrefe, pensou o caipira, o que será isso... Ah, deixa prá lá, seu jeito pede ajuda, não me engano.

- Cumpadre, está fazendo o que neste fim de mundo, vamu inté lá em casa, tem café, água, um lugar procê descansa o corpo. O sol já vai se pôr.

Ainda com olhar soberano e voz entonada, orgulhosa, falou o estranho.

- Corpo... É só o que me resta... Vamos lá...

Caminharam lado a lado, mas o estranho, sempre um passo a frente.

O caipira, delineava sua riqueza ao estranho.

- Veja o pôr do sol, que lindo, como as flores respeitam a vontade do sol, como se murcham parecendo adorar o levantar da lua... Veja o reflexo no rio, que lindo, olhe as borboletas buscando seu canto... Olhe, veja, sinta...

O estranho se emburrava, olhar oblíquo, boca cerrada, mirava aqui, mirava ali... Seco... Impávido... Vez por outra media de cima a baixo o caipira.

Chegaram ao seu destino, o sol, enfim, se espreitava entre as árvores no horizonte, o amareliço da lua cheia tomava mais altivez.

- Se sente homi, descansa o que lhe resta.

Olhando ao redor, vendo que ninguém poderia lhe ver ali, relaxou o estranho, sentou-se, e com voz agora pausada se dirigiu ao caipira.

- Lhe agradeço, pela acolhida. Aqui será meu porto seguro por hoje, descanso, me refaço e amanhã sigo meu caminho em busca da recuperação.

- Vóis mece perdeu algo? Aqui nestas bandas?

- Não perdi, caipira, não perdi. Vendi tudo que tinha, tudo, só me restou o corpo. Aliás, vendi o que não tinha também, alcancei com isso aquilo que queria, fiz e desfiz do meu maior desejo, e hoje estou aqui, tentando recuperar algo.

- Vois mece fala muito dificir, me exprica isso direito...

O cheiro de café fresco recendia no casebre, lugar comum, chão de terra, fogão de lenha.

- Vou lhe contar, se puder me entender.

- Vamu lá, to orvindo... Aliás, adoro orvi os otros, sabiava... Principarmente quando falam dificir como vóis mece.

- Pois é caipira, ainda jovem tive um sonho... Me vi morando em Brasília, poderoso, soberano.

- Brasília é a capitar né, eu vi um dia na televisão lá no empório. Bunita cidade. Prédios bunitos, gente sempre sorrindo.

- É isso mesmo... Uma falsidade.

- Pois fui em busca de meu sonho, caipira, era tudo que queria... Assim iniciei uma carreira.

- Me filiei a um partido político... Não gostava muito das idéias dos mais radicais do partido, mas eles mandavam, enfim, tinha que ter uma sigla atrás de mim...

- Ahhhh, eu sei como é, vi na tv também, pmsc, ptz, pdf, sei lá, coisas assim, cum monte de homi falando dele...

- É isso mesmo caipira, é isso mesmo, tornei-me deputado estadual pelo partido, fiz coisas que o partido quis, mas depois vi que tinha vendido minha consciência...

- Ainda assim fiz projetos, briguei por coisas básicas, lutei pelo bem do povo, mas estava sozinho... Fui cortejado por outra sigla, prometeram-me um Estado, meu sonho aumentou, esqueci meu ideais, me aliei a eles... Fui eleito, era Governador.

- Olhei para trás, vi que tinha vendido minha vergonha... Já agora prometia, prometia, mas nada cumpria, meu destino eram votos, o resto, ora o resto, isso o tempo apaga. O Partido era assim, a política era assim. Vergonha na cara não mais existia.

- Acho que te entendo, é inguar o zé ferreiro, político aqui nas vizinhança, todo ano de eleição ele vem aqui, me trás um chinelo, um sanduíche, um quilo de arroz. Promete água, promete luz, e nada.

- Pois é caipira, isso é política.

- Mas continuando... Como Governador, mirei o horizonte à frente, esqueci das promessas atrás... Tinha um objetivo, sabe como é, todos têm, eu tinha que lutar por ele, custasse o que custasse. Fiz e desfiz no Estado, era minha ponte para prosperidade...

- Fui cobiçado caipira, eu falava muito, o povo gostava, e fazia pouco, mas tinha lá meus culpados a apontar, não verdadeiros, é lógico, mas quem quer saber da verdade...

- Acho que intendo vóis mece, é como meu chinelo, este ano ganho outro, o resto, ora, um dia vai vim, e se num vim, num ligo, nem preciso tanto.

- Pois é, como dizia, fui cobiçado, e me mostraram um País. Fiz uniões, coligações, provoquei desilusões. O sonho era meu!

- Venci. Promessas vãs outra vez me levaram ao topo. Fui aclamado, aplaudido e depois odiado, combatido. Brasília, enfim Brasília.

- Olhei para trás, lá estavam meu orgulho, minha sensatez, meu equilíbrio, minha hombridade, tudo vendido, mas aqui estava eu, no meu sonho, não me importei.

- Quatro anos se passaram, as promessas, você sabe, tinham que ser maiores... As fiz: reforma agrária, educação e saúde para todos, e num toma lá da cá natural pincelei algo aqui, algo ali, pessoas se enriqueceram atrás de mim, construindo a custo de sangue e lágrimas alheias.

- Quase chegando ao fim caipira, mudaram a lei, poderia continuar no trono, mas o que vender agora... Já não tinha mais nada.

- Num to intendendo muito bem, mas vamu lá, continue.

- Aí me deparei com ele. Quer ser presidente de novo, me perguntou ele, e eu disse, quero, claro, meu sonho, mais um pouco do meu sonho.

- Então veio a cobrança caipira, a pior delas e eu anui, vendi minha alma.

- Vixe, que coisa... E agora?

- Bom não passei na primeira votação caipira, não vou ser candidato do partido e por isso estou aqui, em busca do que perdi.

- Primeiro quero achar o diabo, recuperar minha alma, depois, vou atrás de minha hombridade, minha dignidade, minha consciência, minha vida caipira, minha vida, pois até agora vivi por um sonho, um sonho onde fiquei sozinho, sem amigos, sem família, sem ninguém. Mentirosos ao meu redor.

A essa altura, o sol começa a se levantar novamente... Ambos, ficaram a noite toda conversando... O poder se levanta e se despede... Obrigado pela acolhida caipira, nunca me esquecerei de você, quando estiver no poder de novo, me lembrarei de você.

O poder se afasta... 20 minutos e vulto some no horizonte.

O Caipira coça a cabeça, vê que pouco entendeu, e resmunga.

- É, a vida é curta, quero só vivê-la ao meu modo afinal, tenho tudo que preciso. Quem sabe um dia ele vorta e me trás um sapato.

(Márcio Bueno) autor

2008-07-17 Outros textos Márcio bueno Márcio bueno
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Comentários

Gostei do caipira, modestinho e inteligente rsrs
Bjs Michelle nanda
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