o véu negro de ariadne
O VÉU NEGRO DE ARIADINE
Ele foi homicida desde o principio e não permaneceu na verdade,porque a verdade não está nele.
Quando diz a mentira,fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso por natureza e o pai da mentira.-jó.
Aldeia de Sant'Ana, Portugal, 1585.- Período da Santa Inquisição
Ariadne Rose di Mary, tinha acabado de chegar da igreja que ficava no alto da colina e foi inaugurada com o Auto de Encenação de Pirataraka.
O auto falava da expulsão do demônio com a ajuda de Nossa Senhora. Ela estava pouco tempo casada.
Ainda era jovem nos seus vinte e seis anos. Vinha de uma família do sul da França.
Seu pai judeu foi perseguido, acusado e preso por fazer parte de uma "irmandade secreta" contra a igreja de Roma.. Sua mãe foi tida como louca. Com a morte da mãe ficou perambulando de casa em casa de parentes até que foi trabalhar e continuar os seus estudos na Espanha. Mudou-se para Portugal. Lá conheceu e se casou com o filho de um rico proprietário de bordéis na Alemanha, Itália, Espanha e Portugal. Seu sogro, um espanhol conhecido como Nino, O Gordo e, também, como O General. Cheirava mal, com vestes sujas, e úmidas de suor. Esse aspecto não era por falta de dinheiro e sim pela sua usura. Funcionário da Santa Inquisição e metido a entendedor das Leis, esse rábula entendia mesmo profundamente era das meretrizes. O seu filho Nininho sofria do vício maldito da bebida e daquela droga... do rapé. Ele cheirava muito quando chegava em casa, às vezes quebrava tudo e, aos berros, acordava Ariadne.
— Levanta mulher, que o teu macho chegou para comer. Não se espante não. A minha fome é de comida mesmo.
Dava várias gargalhadas.
- A outra carne já comi e me saciei no bordel sua otária!
Ariadne suportava tudo aquilo com resignação. Achava que era por causa do vício. Afinal no fundo, ele deveria ser um bom homem, pois na sua casa não faltava nada. olhos empapuçados e cheios de cobiça do velho Nino, O Gordo, seu sogro. Ela tinha algo de diferente de todas as putas que conhecera pelo mundo afora. Sim, ele a cobiçava. Embora fosse mulher do seu filho. Cornear um filho não era uma desonra se aquela que vai para o leito da devassidão não possui a pureza nem a honra de uma verdadeira Santa. Sim, qual a meretriz que se pode intitular de honrada? Só se for por cumprir todos os atos obscenos... Mas voltemos àquela noite.... Seu marido, Nininho, estava feroz e embriagado pelos boatos sobre Ariadne que ouvia constantemente das meretrizes e, principalmente, de dois amigos, Fredo e Nelton, no bordel de seu pai.
Diga-me a verdade. Com quem você anda se encontrando?
Perguntou ele para Ariadne.Ela tira o seu véu negro e responde para Nininho;
— Eu vou apenas à igreja para rezar e tocar violino e fazer alguns desenhos com o meu mestre que chegou há poucas semanas. Depois venho para casa.
— Quem é esse mestre de desenho e violino? Um padreco não pode ser. Só falta me dizer que é um santo. Dizem que é um mago. Sua perdida você está me traindo com esse tal mago alquimista que falam por Ai?
— Nininho, por que falas assim como se eu fosse uma das meretrizes do bordel do seu pai.
Nesse momento entra Nino, O Gordo estava ouvindo tudo atrás da porta. Com as bochechas gordas vermelhas de ódio foi dando logo um chute violento na cadeira e esbravejou.
— Ariadne não fale nem por brincadeira contra a honra da minhas meninas. Você não chega nem aos pés delas. Elas prestam um grande serviço ao reino de Deus e à humanidade. Graças a elas muitos pecados não são cometidos em casa com nossas mulheres, só no meu bordel.
Depois são perdoados quando suas moedas caem no cofre da redenção. Os nossos clientes pecadores pagam suas indulgências. Por isso saem de lá puros aos olhos de Deus. Só as santas putas perdoam. É por isso que elas cobram impostos, mas como são mulheres estão livres de pagar impostos. As minhas meninas é que fazem aborto, trepam sem nenhuma proteção, tomam porradas de seus machos, são mães de filhos bastardos para que as mulheres de nossa corte possam viver na mais aparente felicidade: em paz com o marido, com a igreja e com Deus. Não fale das minhas meninas não.
mas não é flor que se cheire, porque nunca foi flor.
— Não fale assim de Ariadne. Ela é uma mulher sensível não vai agüentar isso. Gente, vocês estão falando da reputação da minha mulher. É a reputação da minha mulher que está sendo julgada aqui.
— Re–pu-ta-ção. Veja bem filho! Veja bem! Só existe um caminho para a reputação. É o bordel. O sexo louco, incontrolável, com a ação e reação da fêmea diante do macho faminto. Uma puta que satisfaz o seu macho é uma puta de uma reputação!.Mas no teu caso essa mulher não te satisfaz portanto não tem reputação, porra! Ela não tem reputação!
Gritou Nino nervoso. Depois olhou para Nininho e acrescentou:
— A tua inocência filho me deixa perplexo.. Será que você ainda não entendeu que a tua mulher é capaz de agüentar tudo? Sim, ela agüenta tudo! Mas de você ela parece que não deseja agüentar mais nada, porra.
— Oh, diga-me pai qual foi o meu mal?
— Você quer saber de uma coisa? Então prepare a tua cabeça. É nela que se instala os dois símbolos do mal que um pobre homem pode carregar. O vício e a paixão.
— O que você está querendo dizer com isso meu pai? Por favor, isso não. Eu não posso acreditar...
— Sim, filho. Muitos têm mas não acreditam. Mesmo quando estão frente a frente. Eles preferem a cegueira. Não acreditam. E o pior quando sabem... Fingem não saber.
— Pai, mas o que eu tenho ouvido das meretrizes, do Fredo e do Nelton, são apenas pequenos boatos... Fofocas de bordel ainda não comprovadas.
— Boatos, fofocas filho? Onde tem fumaça tem fogo. E se tem fumaça é porque a pecadora já está no inferno. E de inferno entendo eu, porra! Filho, não negue o mal que já existe dentro de você. Assuma, assuma que a tua mulher caiu no conto do vigário. Então ela é tão vigarista quanto o próprio vigário.
Aparentemente essa história para você parece inconcebível, boatos... Mas é a pura verdade dos fatos, porque tem muita gente metendo o pau nela. O pior é que toda vez que relatamos algo anormal, por menor que seja, pode apostar sempre somos duramente contestados e criticados. É o mal da verdade.
— Pai, deixa-me confessar uma coisa. Eu e Ariadne estamos juntos há pouco tempo. Tenho chegado em casa em constante embriaguez. Nem posso afirmar com convicção se ela é virgem ou não. Mas ela pode me confessar toda a verdade não pode?
— Não, confissão, não! — exclamou incrédulo.
— Isso é coisa de padre! Por acaso o seu pai é um padre e você um confessionário? Olha, pobre filho do demônio a loucura da paixão o faz uma criatura decaída. Todo mundo já está falando. Quando é que você vai ouvir?
— Boatos pai, boatos e nada mais... Eu não quero acreditar em boatos das putas nem tão pouco dos pederastas invejosos.
— Filho, desde que esta mulher chegou nesta casa eu não escuto nada em seu quarto nas noites de luar...é só silêncio! Um puto de um silêncio que me acorda endemoniado. Que inferno de merda é esse silêncio?
— Pai, meu quarto não é um bordel.
— Antes fosse, pois o quarto, para uma mulher, é o seu verdadeiro bordel. Elas se preparam num verdadeiro ritual para seus machos. É lá, nos quartos, que elas soltam seus gritinhos... Mordem de tesão os travesseiros... Enfiam as unhas em garras rasgando os lençóis, únicas testemunhas da sua orgia. Já as putas quando trepam gritam, urram... Berram como loucas!
— Mas Ariadne não grita... Isso eu te garanto pai.
— Bem, contigo ela não grita, nem geme... Sabe qual é o maior terror para uma mulher?
— Não lhe dar bons presentes.
— Porra nenhuma! A mo-no-to-nia, a mes-mi-ce. O tééé-dio que o seu "macho" a faz viver quando ignora o seu mundo interior de fantasias e de putaria. Este é o seu terror e o seu sofrimento. Porra filho, quando é que você vai aprender? A mulher séria não grita, apenas geme de tesão.. A mulher séria é uma gritona amante do silêncio, tá me entendendo? Mas no seu quarto tem um silêncio diferente. Alguma coisa tem por trás disso. Ela está fornicando com o outro. Toda adúltera é silenciosa e apressada no quarto do marido. O seu orgasmo falso é rápido para se ver livre do incômodo imprestável. Depois faz voto de lealdade com o amante e transforma o quarto neste puto silêncio. Tá me entendo agora? A sua mulher está integralmente entregue à lealdade.
— Isso não! Isso não pode ser verdade.
Sim, filho. É o silêncio da lealdade... Das putas traiçoeiras... Portanto não deixarei que sucumba do mal que se instalou sobre a sua cabeça. Prepara-te para a verdade.
— Que verdade? Eu sou o próprio filho da mentira.
-Call-ma-aaa!Como se atreve a falar assim comigo? Sempre procurei te ensinar tudo. Isso da sua parte é muita ingratidão. É..às vezes até me esqueço que neste corpo estou feito de carne e sangue. Que matéria mais podre um diabo pode encarnar!. Oh, pobre natureza humana que se doa sempre esperando a inútil gratidão!
Reclama.
Ruy Crespo
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