O taxista falador
Outro dia eu vinha do mercado. E como é próprio de um taxista. Bem como de um cabeleireiro. Começa a experimentar-me algum tema, pra ver se me agrada enquanto passageiro, abordando então meu preferido, pra tornar a viagem menos longa ou mais prazerosa.
Mas, se escapo à chatice de ter que me lembrar de um monte de apelidos estranhos, e até que um tanto esquisitos como: Dada, Dede, Didi, Dodô e Dudu, sem falar nos pontos e classificações, dos times do campeonato paulista. Não escapo ao segundo! “Doutor! O senhor leu sobre o assalto ao mercado. Aquele ocorrido hoje pela manhã?” Não! Não li. Deixe-me contar! O senhor não vai acreditar! O vagabundo já estava com todo o dinheiro do caixa na mão. Ninguém reagiu! Por quê? O maldito tinha que atirar no velhinho. O pobre tinha mulher e filhos pra sustentar. E o infeliz ainda abre a geladeira, pega uma lata de cerveja, e sai bebendo como se estivesse festejando!
Olha! Vou dizer uma coisa pro senhor. Se eu sou da polícia, esse vagabundo não vai preso! É!... Porque se o pego... Mato-o na hora!
O animo do homem ia se exaltando! Lenta... Porém visivelmente! Notórios em seus franzires de testa, movimentos de sobrancelhas, e repuxos no canto da boca.
Era um homem negro! Daqueles de nariz chapado. E quando usava expressões como: esse vagabundo!... Mato-o na hora!... As narinas se dilatavam de tal forma assustadora. Que pareciam apavorar os seus próprios olhos. Que se arregalavam revelando um branco amarelado, repleto de veias muito bem irrigadas, que ilhavam, negras íris como jabuticabas, que pareciam querer saltar às órbitas.
Tentei mostrar-me solidário... Dizendo: “a vida esta ficando barata na cidade grande!” Mas quando pronunciava a silaba “ci”... Ele retoma certo de que acertara no ponto! E agora vem de forma entusiasmada e galopante! “Barata nada!... De graça!” Veja o senhor que outro dia um vagabundo, matou um homem só porque ele não tinha um cigarro! Um homem agora é obrigado a fumar? Tem que andar com cigarro no bolso, pra sustentar vagabundo? Se eu sou da policia... Doutor! Esse vagabundo não vai preso!
Escuta essa doutor!... O vagabundo está jogando sinuca, e quando vai dar a tacada, um freguês passa por traz dele. O taco resvala em sua barriga e o vagabundo erra a jogada. O jogo era valendo... Era a dinheiro... Resultado! Após breve discussão... Saca do revólver e dá cinco tiros no pobre.
O moço era um feirante que acabava de chegar do trabalho, e enquanto a mulher preparava o almoço. Saiu pra comprar um refrigerante. E nunca mais voltou para casa. Ah!... Se eu sou da polícia!... Esse vagabundo não vai preso!
O que mais me preocupava a essa altura... É que toda vez que pronunciava essa frase. Tirava uma das mãos do volante. E inclinando-se para direita com ela espalmada. Batia no painel do automóvel, como se contasse as sílabas da frase que pronunciava com lenta precisão. E arredondando-as com muito cuidado. Causa que!... Num dado momento. Deixou o carro fugir um pouco à esquerda, e o motorista ao lado buzinou!... Por quê? Pondo a cabeça para fora da janela do automóvel. Ele gritava em voz alta: “vai roda presa! domingueiro! não vê que estou trabalhado! eu também tenho buzina!... quer ver?” E disparou o buzinaço.
Tenho certeza!... Que nem se apercebeu do que fez, pois estava exaltado... Mas... Também admito! Não era um bom motorista. E nem poderia ser, pois, era tão alto e corpulento. Que mal cabia dentro do automóvel! O que o tornava um tanto desajeitado. Os joelhos roçavam o volante. E se querem saber! Era um “Santana”!
O homem era mesmo muito grande: cabeça grande, corpo grande, pernas grandes, pescoço braços e mãos. Mãos! Não sei se aquelas coisas enormes, a não ser pelos dedos. Poderiam ser chamadas assim. Pareciam mais apetrechos de jardineiro. Aqueles com os quais se juntam as folhas do gramado. Tinham tom achocolatado nas partes internas e entrededos. Tinham também unhas... Deviam, portanto, ser mãos! Sei, porém, que mal cabiam no volante, Ou asse nelas!
Para terem uma idéia. Tentem imaginar que o volante é o planeta Terra, e visto da Lua, ou do espaço como por Iuri gagarin. Imagine que as mãos se aproximassem para segurá-lo. Não pela frente, mas sim pelos lados, pelo perímetro. Se a parte próxima dos pulsos se apoiasse na linha do equador! A ponta dos dedos, certamente alcançaria facilmente o pólo norte.
E prossegue falando sem parar. Os lábios do negro eram protuberantes. E o inferior se desenrolava para fora. O que produzia um característico chuvisco ao falar apressado... Como que se os fonemas tropeçassem no lábio, antes de saírem da boca, arrastando consigo a saliva.
Quando se virava para mim!... Eu disfarçava. Como se olhasse um letreiro na rua ou como se checasse a trava da porta. Ou mesmo o ajuste do cinto de segurança. Assim... Evitava os respingos no rosto. Muito embora fossem inevitáveis na nuca! Menos mal, creio!
Numa tentativa de desviar o tema da conversa, Pergunto! O senhor tem filhos? Já me preparando para uma segunda pergunta após o sim! Tentando guiá-lo para outro rumo na conversa. Porém... O sim! Vem acompanhado dos nomes, bem como: idade, sexo, altura, características físicas, perfis de caráter, estados de humor e outros. O que o faz recordar de uma briga, em que se meteu o filho do meio... Que por ser baixinho e gordinho! Recebera o apelido indesejável de “azeitona”! E aí... A conversa promete esticar! Saindo do campo da criminalidade. E indo para o campo do racismo e discriminação social. E como o caminho ainda era longo! Resolvi intervir antes que chegasse naquela parte que... Batendo no painel do automóvel ele diria: se eu sou da polícia!... Esse vagabundo não vai preso! Momento em que olhado para mim... Vitimava-me com o chuvisco indesejável de saliva... E eu teria que checar a tranca da porta.
Cortando a conversa meio que por cima de suas palavras. Tentando encaixar minhas frases entre as dele. Eu pergunto! Com um ar de muito interesse. Como foi a infância de seus filhos! Lá pelos dois ou três anos de idade?
O pára-brisa a esta altura. Na parte em frente a ele. Começa a ser chapiscado de gotículas... Não que chovesse! É que quando começou a falar dos filhos. Assumiu uma postura que. Apoiando o antebraço na janela do carro, e com a mão segurando o retrovisor do lado de fora. Inclinou-se ligeiramente sobre o volante! E como se fizesse uma viagem ao passado. Revendo a infância dos filhos e tudo mais. Distraiu-se rebuscando em memória as doces lembranças desse tempo de alegrias. Aos poucos foi relaxando de tal maneira. Que chegou até mesmo a ligar o limpador de pára-brisa. Qual não foi sua surpresa! Vendo que balançava de um lado ao outro, mas nada limpava. Apercebendo-se da situação! Recompôs-se no banco, e, enquanto usava a flanela, deixou o carro fugir-lhe o controle, por apenas um segundo. Porém, foi o bastante! O choque não foi grande. Mas, o outro carro sofreu um risco na lateral.
Pararam no meio-fio e após se aproximarem. Começou o bate-boca!
Coçando a cabeça, um disse:
_Você não viu que eu estava dando seta! Por que não me deixou entrar, ao invés de me fechar?
Tirando um cigarro do bolso o outro responde tranqüilamente:
_Fechar!... Eu não fechei ninguém, você que avançou à minha pista.
Mostrando-se indignado. Aquele enfatiza:
_Sua pista não! Eu também pago impostos nessa cidade. Portanto posso ir de uma a outra pista na hora que quiser!
E esse se mostrou irônico, depois enfático e taxativo afirmando:
_É! Pois é... Por isso que estamos aqui parados. Porque você muda de pista na hora que bem quer! Sem olhar pro lado, sem ter espaço pra por o carro! Mas... Não está sozinho na pista não baixinho.
É nesse ponto que o embrulho começa a rasgar, pois, o outro não deixou barato.
_Baixinho não negão! Olha lá como fala. Você é grande mais não é dois.
E aí!... Eu comecei a me preocupar. Porque perto do negro, eu era baixinho. Perto de mim, o baixinho era baixinho. Perto do negro!... O baixinho era baixíssimo! E se baixíssimo era em tamanho, em arrogância, pretendia igualar-se ao negro.
E a essa altura, eu! Estava no meio da confusão. Exatamente entre o baixinho com febre de Napoleão. E o negro com ares de Zumbi!
Comentei que não valia a pena ficar nervosos, pois o custo do conserto era barato. Talvez até mesmo uma cera e uns poucos esfregões resolvesse! Mas a bem da verdade. A questão já não era mais os prejuízos materiais. E sim os morais.
O negro esbravejava e gesticulava como um legítimo Siciliano! E o baixinho, que me tinha como escudo! Não deixava nada barato. Respondendo a altura.
As palavras proferidas por uma e outra boca. Eram apenas reflexos das que chegam aos ouvidos de um e outro, sem nenhuma ponderação! E seus rostos foram assumindo expressões indesejáveis: estrias nas bochechas, espremeres de olhos, franzires de testa, repuxões de bocas, rangeres de dentes, e outros. Todos os reflexos de quem age só com a emoção.
Foi quando sabiamente dei dois passos para trás. E o baixinho! Vendo-se ante a Muralha de Jericó. Despiu-se de Napoleão! Revelou-se um homem inteligente e astuto. Aproveitando-se de uma palavra na frase. Que compunha o negro já se curvando, para fixar bem sua expressão de discordância, referindo-se ao risquinho como um arranhão.
Sabiamente saindo da frente do negro! Desloca-se o baixinho para o lado dizendo: “Vamos ver então!”, e caminhando para a lateral riscada do carro. Agacha-se como que se quisesse apurar a visão! Certificar-se! Colocando-se assim, numa posição de total desvantagem e aparente submissão! E de lá. Com um tom mais leve nas palavras. Aceitando o arranhão como um risquinho! Contorna toda a situação, sem maiores prejuízos.
Aproveito o gancho nesse refrescar de ânimos, e digo! Senhores! Tenho um compromisso logo mais. E o taxímetro está correndo... Após algumas ponderações. Voltamos para o carro... Graças a Deus!
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