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O homem do seu pirú

O homem do seu pirú.

(*) Texto de Aparecido Raimundo de Souza

Em tudo o que o velho Olavo dissesse ou fizesse, com certeza não faltaria a frase lacônica “o que há com seu pirú?”. Fosse em casa, com a família, na rodinha com os amigos do bar, nos jogos de cartas, no boliche, ou nas peladas de domingo, “o que há com seu pirú” vinha logo depois do bom dia, boa tarde ou boa noite. Nos encontros pelas ruas, ou nas topadas nas esquinas e praças, dentro dos estabelecimentos comerciais, na saída da missa, enfim, Olavo criara uma espécie de marca registrada sua.

- O que há com seu pirú?

A comunidade, em peso, já se acostumara e não dava importância a essa loucura do setentão. Se alguém de fora chegasse no bairro e procurasse por Olavo, vinha logo o complemento. “O homem do seu pirú?”. Muitos sentiam falta quando ele sumia por duas ou três semanas, ou não era visto nos lugares costumeiros. Foi assim, na festa de aniversário de 10 anos, da filha mais nova do seu compadre Maneco. Logo que saltou do carro, o Maneco correu para lhe receber na entrada do salão, onde um bando de crianças, em polvorosa, aguardava a hora de cantar os parabéns e cortar o bolo. Depois dos apertos de mãos e abraços, o jargão entrou em cena.

- E aí, Olavo, meu compadre, tudo bem?

- Graças a Deus, estou tocando, compadre. E quanto a você: o que há com seu pirú?

Invariavelmente acontecia assim. Nunca mudava. Virara rotina. A coisa fazia parte dele, como o ar que respirava.

De certa feita, foi chamado a depor na justiça como testemunha de uma separação litigiosa, onde um vizinho seu, se via às voltas com a ex-mulher, que pretendia lhe arrancar até as cuecas. Na hora que se sentou na frente do tal juiz de direito, o magistrado o cumprimentou com respeito.

- Seu Olavo, boa tarde. O senhor foi chamado aqui para ser uma das testemunhas no processo de Paschiesfildd Sabugoso.

- Pois não seu doutor juiz. Estou às suas ordens. Mas e dai?

- Daí que eu estou informando que o senhor veio depor?

- Tudo bem, mas o que há com seu pirú?

Belo dia, Olavo bateu botas. Sofria do coração e ninguém sabia desse fato. Nem a mulher, nem os filhos, nem os parentes mais próximos e, claro, nem o próprio. Teve um ataque fulminante quando saia do açougue do Chico Boi, a poucos metros de casa. Correram com o coitado, para lá e para cá, chamaram a ambulância, o médico, mas nada. Esticou as canelas de verdade. Fato consumado. No velório, o bairro em peso. Uma multidão se acotovelava no pequeno espaço da sala que servia para velar os corpos antes de partirem para a última morada. Todos queriam passar perto do caixão, tocar no velho Olavo e lhe dar o derradeiro adeus. Uma leva imensa já havia contornado a urna mortuária, quando, de repente o defunto levantou um pouco a cabeça, esparramando, em derredor, uma porção de rosas e cravos que caiaram nos pés das pessoas que restavam na fila. Com a maior cara de pau, ou melhor, com a cara de pau de um defunto, Olavo olhou em volta e mandou bala:

- Ei, o que há com seu pirú?

A galera se mandou para a porta, aliás, a única. Todo mundo queria ganhar a rua a um só tempo. Foi um deus nos acuda, com a turba, aos gritos e aos berros, tentando evacuar o recinto. Algumas, mais afoitas, preferiram a janela. Não ficou ninguém perto, nisso se incluindo a viúva e os filhos, que também racharam no trecho. Precisaram chamar o destacamento do corpo de bombeiros e a polícia militar para levar o féretro até o local onde seria sepultado.

(*) Aparecido Raimundo de Souza é jornalista.

Contatos:aparecidoraimundodesouza@gmail.com

2010-02-27 Engraçados Aparecido Raimundo de Souza Aparecido Raimundo de Souza
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