O homem-cão
Era tarde de segunda, mas que fosse sexta-feira! Para o homem-cão, qualquer hora é hora, qualquer dia é dia. O que manda é a roncação, aquela que se processa no estômago, daqueles que não provem sua provisão. Seguindo o dia junto às horas, cada passo há seu tempo. Como quem marca o momento, qual ponteiro de relógio, do passado se esquecendo, e o futuro sendo o agora.
Fez-se curvo sobre o saco... Meteu o dedo! Não sei se foi o cheiro de azedo, ou outro código passível de interpretação. Mas notei bem claramente, houve certa empolgação. Cedeu-se sobre os joelhos na calçada, como quem se presta a fazer uma oração. Por um instante ficou estático, pareceu-me reverente, ou inserto sobre a sua decisão. Mas foi só por um segundo, antes da reviração. Revolvia os de cima para o lado, com certo cuidado, pois ao fundo estava o seu quinhão.
Enquanto me contorcia embaraçado, frente à indignidade humana. Recordei-me dos dez centavos esquecidos, que deixei no caixa sendo o troco do pão. Já ia à porta... Quando um grito exclamativo faz-me voltar. E um homem sorridente que na face, tinha estampada a própria dignidade humana. Estende a mão! Entrega-me a moeda... E adverte... Atenção! “Quem não junta tostão, nunca faz milhão.” Isso!... Leva-me a pensar na astúcia humana. Devolvera a moeda por que era justo e honesto? Ou por que seu valor era menor que a recompensa? Refiro-me aos elogios com os quais o reguei. Afinal... Foi um banho no ego, e ademais! Às vistas e ouvidos de alguns fregueses. Que a partir de então, o teriam como confiável. Digo isso, pois... Pressuposto sua habilidade com as cifras, não teria tempo se quer de virar às costas, eu! Pra que tivesse em conta, ele! Sobra ou falta de centavos. Mas como vês... Esperou-me dar vinte passos, para chamar minha atenção em alto e bom tom. Recebendo assim a sua paga... Para mim evidente, pois, visível era em seus olhos o brilho faiscante. Aquele que só se revela... Quando alguém é muito bem recompensado.
Veja o homem abastado e engravatado, que tropeça com uma nota mixuruca. Não se curva. Não se presta a esta humilhação, Pois tal ato não paga as dobras que fará ao terno. E alem do mais, o próprio gesto de curva-se lhe sugere, a própria sujeição! O que é impróprio a quem desfila de carrões. E pela fresta da janela cede múltiplas como àquela. Pra não ter o desconforto de ouvir mendigações. Nem tampouco afrontar a vista... Com o flagelo do pedinte que vê como um acinte.
Mas... Voltando a fuçassão ao saco preto de cujo! A pata ou mão do homem-cão saía. E seguia orientadamente rumo à boca, em gesto trêmulo é bem verdade. Mas também escopo. Enquanto a cabeça cedia lentamente. Não sei se impulsionada, mais pela gravidade! Que forçava os músculos aparentemente frágeis. Ou pelo aclame que enfurecia a roncação, sedenta de saciedade... Que nessa hora frente ao vislumbre do contemplo multiplicava seus anseios.
Mas... Por um momento cessou-se! Antes que houvesse a consumação. Não sei o que fervia naquela mente... Se tramava uma ultima ponderação. Ou esperava um rebelisco repuxando ao pé da tripa. Quando então, a dor aguda lhe forçaria ao xeque-mate. Talvez! E porque não... Seria aquele o segundo de lucidez... O segundo do milagre que o poria ereto... Que o faria seguir em frente, mas... Para ir aonde? Fazer o que? Pra humilhar-se mais adiante. Talvez ao pé de algum passante. Ou à porta de algum cristão! Porém, por um prato quente.
Foi quando então... A outra mão. Juntando polegar e indicador como a uma pinça. Retira um aparente osso do montículo azedo. E essa segue rumo à boca sem remorso ou pena. E em fim se dá a consumação.
Devo admitir que algo ficou a martelar em minha mente. Algo de cunho filosófico e sociológico. Algo próprio das mentes, que são afiadas na arte do pensamento. E enquanto seguia meu caminho. Deixando para trás o homem-cão. A esta altura já saciado... Refletia!
Não me lembro onde ou quando. Li ou ouvi de um grande pensador. Algo que dizia: “que a mente humana em sua infinda complexidade, engendra mecanismos de defesa, para proteger se dos elementos externos.” - E por que não?... Até de si mesma! Pois que... Com sua imensa capacidade de raciocínio, a tudo precisa dar explicação. Um desses mecanismos de defesa... É a indiferença! Ou superficialidade com que podemos lidar com certos fatos, sem permitir profundos envolvimentos.
Já vou esclarecer melhor o que pretendo expor. Veja você! Que todas as noites no horário nobre. Vemos uma série de programas sensacionalistas, que põe diante de nossos olhos. Toda sorte de tragédias e desgraças possíveis. Morte, seqüestro, assalto, estupro, catástrofes. E com certo grau de exaltação e com requintes de detalhes. Sim... Hoje os vemos ao vivo e a cores, e com direito a reprise e snowmoche. E o apresentador... Reproduz nossos comentários. Incorpora os nossos gestos e expressões como se dividisse a sala conosco!
E tudo isso em culto à nossa dignidade. Porém... É como se tudo se passasse em outro planeta. É como se fosse um outro programa! Tal quais filmes ou novelas... Só para nossa diversão. Passado aquele instante mudamos de canal. E estamos prontos pra comédia ou para o musical.
Afirma o filósofo: “Que se tomássemos todas essas dores, não poderíamos sobreviver. Morreríamos simplesmente. Encharcados de infelicidade. Túmidos de indignação”.
Mas isso me leva a pensar mais adiante... Mais adiante não! Mais atrás! No momento em que passava pelo homem-cão. Assistindo tudo, e não fazendo nada... Como se estivesse diante da televisão! Mas o cheiro era forte, o ar estava frio. O tempo era real, e tudo acontecia, enquanto respirávamos! Será que isso me faz menos humano que os outros passantes. Aqueles que nem se apercebiam do fato. Ou que apenas o vislumbravam como um a fato comum. Sabe! Como quem olha para uma árvore ou um arbusto.
Aqui! Inclino-me a focar a ponta do nariz. Pra não perder a essência humana, que me diferencia dos outros animais. Nessa visão unifocal, descrita por “Machado de Assis” Posso ver o quanto sou generoso ao tirar o carro da garagem, às duas horas da manhã, ou qualquer outra hora do dia. Pra levar algum vizinho adoecido ao hospital. Posso ver o quanto sou gentil, segurando a bolsa, ou cedendo o lugar à moça ou à senhora. Posso ver o quanto sou responsável, cuidando bem dos meus afazeres no trabalho. E também de toda a minha família cujo peso, tão grande arrasto sobre pedras e espinhos, pra mantê-la em união saudável. Posso achar finalmente... Que esta é tarefa, e incumbência dos abastados e ricos, que tanto tempo e dinheiro têm de sobra. E que por tanto... Pra se regenerarem dessa vida fútil e desfrutiva, deveriam se incumbir dessa tarefa, e não eu!
Por quê? Não achar que esta é tarefa do governo! Afinal... É dele! Enquanto Estado, a incumbência de prover o mínimo necessário a todo cidadão.
Mas... E quanto ao homem-cão? O que diz ele a esse respeito? Alguns dias depois... Perguntei-lhe sobre sua própria situação! Como via sua vida às margens da sociedade? Respondeu-me o seguinte: “Vivo neste mundo como qualquer outro ser humano, me ajustando, entre duas forças opostas que orientam o meu caminho. Minha necessidade e minha possibilidade.” E aqui... Fez-me perguntas: você tem tudo o que gostaria de ter? faz sempre o que gostaria de fazer? recebe tudo que gostaria de receber? oferece tudo que gostaria de oferecer?
Antes que eu pudesse responder! Ele prossegue... “Veja a abelhinha que pairando sobre a margarida. Observa que o pólen ainda está imaturo, e deixa pra colhê-lo noutro dia posterior. Mas quando lá chega, descobre que já foi colhido por outra abelhinha. Não fica chorando sobre a flor a abelhinha. Segue seu caminho, em busca de outra flor. E colhe o seu pólen e prova o seu sabor. Assim faço eu, sigo o meu dia! E sempre ao seu sabor. Faço-me ao seu gosto! Não ele ao meu. Se tivesse chegado àquele saco três horas antes, atenderia à minha possibilidade. Teria achado comida fresca, mas àquela hora. Não esperava nada menos azedo ou com mais sabor. Certo que matou minha fome... Atendendo à minha necessidade.”
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