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NEURAS

Aquele "tic-tac" incessante que vinha do relógio de parede estava deixando-o enfurecido. Seu olhar percorria os quatro cantos da sala sem nada enxergar - a não ser suas alucinações constantes. Passado e presente misturados numa cena horrível de futuro trágico e próximo.

Não conseguia pensar em outra coisa, somente em sua urgência.

Tremia como quem está há horas no frio, nu e sem perspectiva de abrigo. Ao mesmo tempo, suava feito um marido traído em busca de explicação no momento do flagrante em sua própria cama.

Rangia os dentes como quem padece de bruxismo crônico.

Nada o fazia esquecer sua questão - era tudo ou nada. Viver ou morrer era uma pergunta inútil naquele ardor do desejo.

Precisava agir, rápido. Imediatamente, num piscar de olhos, pega aquele objeto metálico capaz de proporcionar uma tragédia com seu poder de fogo. Ajeita-o entre os dedos trêmulos da mão direita e, bem devagar, direciona-o a sua boca. Sua mão treme, seus olhos cerram e seu polegar firme e ao mesmo tempo amortecido apóia aquele que pode pôr fim a uma história em um milésimo de segundo.

Seu dedo indicador então começa a dar sinais de que vai deslizar e acabar logo com aquela agonia de anos.

Chegou a hora. Não há mais tempo para nada, nem pra pensar, nem pra se arrepender, muito menos pra se justificar.

Seu dedo escorrega e dispara aquela arma de fogo.

A chama ilumina todo um passado há muito enterrado, mas não esquecido, vivo em seu peito.

"Tic" - o isqueiro acende seu cigarro há muito desejado. Foram sete anos sem fumar.

2006-06-28 Engraçados RICARDO MARDEGAM ricardo
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