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Luzes amarelas

Eu nem sei mais o que faço... Nem sei de nada. Paro e imagino as luzes amarelas, como elas são belas. A cidade cheia de pessoas, sinceras, boas pessoas. Todas em trajes tão bonitos, eu vejo veludos. O tempo parou tanto, aqui não há tecnologia alguma, mais mesmo assim, somos felizes. Passeamos a noite nas praças, vemos o nascer e o pôr-do-sol. Algumas noites são tão glamurosas, os bailes, todos nós nos conhecemos. Somos dignos, temos tempo para amar. Preservamos tudo o que há de mais belo, nossas cidades são fantásticas, nossos carros, não são carros, carruagens. As crianças brincam felizes, de ciranda. Tudo é mágico. Eu sento, de tardezinha, e olho as nuvens azuis, sem marcas de poluição alguma. Olho as flores, sementes, todas cristalizadas pelo sereno. Os gatos estão todos ao meu redor, miando e brincando com as bolinhas de veludo. As amigas chegarão daqui a um tempo, tomaremos chá e depois, não sei, vamos tocar piano e cantar. Mais uma vez, a luz baixa em um tom amarelado, isso é tão bonito. Mudo meu relógio e meu tempo, viajo alguns anos adiante. Percebo que algumas coisas mudaram, o mundo está meio cinza. As luzes amarelas, só existem em algumas cidades do interior. Agora as luzes são brancas, tão estranho, nem são tão bonitas assim. As mulheres nem usam seus vestidos de veludo, em tons variados, em maioria, vinho ou um rosa bebê... Agora as mulheres usam roupas de bolinha, é até engraçado. Seus cabelos parecem meio artificiais. Todos estão lá fora, lutando para uma causa sem fim, acho que é guerra; sei lá. Ficam lá gritando, não gosto muito de barulho. Meus gatinhos sumiram, nem posso ficar junto a eles, o piano deu lugar a um objeto tão estranho, uma espécie de vitrola moderna. As violas nem fazem sons suaves, deram lugar a outro instrumento curioso, que faz um barulho horrível quando mal tocado, gui alguma coisa. Adiante, viajo mais alguns anos, meu relógio nem é de ponteiro mais... Estou em uma dépoca perdida, mais tão próxima, me faz lembrar o tempo das luzes amarelas. As luzes são extremamente coloridas, isso cansa a minha vista. As pessoas são estranhas, se acham tão medievais. Os jovens usam brincos no nariz, tudo é bem distorcido, mais não deixa de ser divertido. As músicas são interessantes, me lembram vagamente as tardes em que tocava piano com as amigas. Todos estão tristes por alguma coisa, acho que são os problemas relacionados ao governo. Engraçado, vários paises estão passando por esta crise, não entendo. Agora, quando se fica com raiva, você protesta. É interessante. Essas vozes, parecem dizer algo, tudo é meio eletrônico, mais não consigo entender, tem um tal de Joy Division que ta fazendo sucesso. No auge o Ian morreu, nem entendo. Nem sei de nada. Tem os Smiths, a voz do Morrissey me encanta. Ele diz tanto com tão pouco... Viajo alguns anos, na verdade nasci. O noventa é um número meio final. As coisas estão podres agora. O mundo tem uma luz branca, que pisca. Um dia parei e tentei olhar o céu, mais ele está tão poluído. Negro. Minhas luzes amarelas, elas definitivamente não existem. Todos parecem tão sozinhos, a tecnologia chegou e tornou algumas pessoas infelizes. As mulheres precisam ser extremamente magras para serem bonitas, precisam estar sempre com seus corpos nus. Elas usam, não usam nada. A música é horrível, existe uma mistura de vários instrumentos, argh, é nojento. Os vestidos de veludos nem existem também. Agora, as crianças nem brincam mais de ciranda, elas gostam de "baladas" onde se oferece um pó, que sempre leva as pessoas para o abismo. Nem vejo flores quase, na verdade as vejo, mais não teêm cheiro algum, elas parecem de plástico, quando você passa a mão no sereno que cristaliza as flores, ele nem sai, parece grudado. Ninguém se preocupa com ninguém. Aquela Maria fumaça, da minha época, deu entrada aos metrôs, que circulam rapidamente embaixo das ruas, que sempre estão cheias de carros e pessoas tão diferentes, mas que se odeiam com igualdade, ruas que conduzem todos a lugar nenhum, continuamente a todo instante, ruas escorregadias por onde os cérebros teêm que passar pendurados nos fios de alta tensão. E aí está você, no meio de toda essa sujeira, seguindo junto ou observando. Não gosto muito desse tempo, prefiro dormir, sonhar, e um dia, resgatar minhas luzes amarelas...

2006-03-19 Outros textos Catherine Catherine
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