Ilusões de um eleitor
Na última eleição eu vi vários candidatos que queriam meu voto frente a frente. Todos, sem exceção, beijavam as pessoas, pegavam as crianças no colo, acenavam amigavelmente, enfim, andavam entre a população sem receios; os seguranças, quando havia, nem se importavam com o assédio em relação aos seus respectivos candidatos.
Minha cidade tem muitas precisões, uma delas é a falta de posto de saúde adequado para atender à população mais carente. Foi nesse ponto que os candidatos que por lá passavam se apegavam; além da educação e da segurança pública.
Chegado o dia da tão esperada eleição, fomos exercer nossa obrigação imposta por lei, mas que está ligado à democracia, ou seja, a democracia começa com imposições ao povo. Ah, se não votamos? Muitas coisas podem acontecer, até mesmo nos proibir de exercer cargos públicos eles nos proíbem.
Venceu o que as pesquisas apontavam. Eu votei nele.
Depois, durante alguns programas de televisão aos quais assisti, fiquei sabendo que todos os que exercem cargos públicos, de vereadores a presidente, são, também por causa da tal democracia, funcionários do povo. Então pensei: posso ir falar com o presidente pra resolver os problemas da minha cidade. Vou mostrar pra ele que lá foi vitorioso nos dois turnos da eleição.
Esperançoso, cheguei à capital do país. Fui ao palácio de onde ele governa, passando pela residência onde ele mora. Muito bonita por sinal. Engraçado, pensei: nunca vi o empregado morar tão melhor do que o patrão, com tanto luxo e com tanta segurança. O mais interessante de tudo isso é que ele tem um monte de patrão que vive pior que ele.
Voltei pra casa, decepcionando. Disseram-me que eu não poderia ser atendido pelo presidente sem hora marcada. Tentei marcar várias audiências, mas não obtive sucesso. Depois de quase um mês acampado, coloquei minha mala nas costas e bati em retirada.
Todos, na minha cidade, acompanharam pelos noticiários a minha tentativa.
Fui aos vereadores, ao prefeito da cidade, mas nem eles puderam, segundo os seus assessores, me atender. Passaram-se os quatro anos de mandato dos nossos funcionários e eles não cumpriram suas promessas. O posto de saúde não veio, as escolas continuam precárias, os professores continuam faltando e ganhando pouco, os assaltos e seqüestros relâmpagos só aumentaram.
Outra eleição está chegando, e, por incrível que pareça, nós, povo, seremos obrigados a escolher outros funcionários que, certamente, andarão pela multidão, mas que se esquecerão dela quando conseguirem os seus postos de emprego.
Assim, só me restará votar e continuar tentando os encontros com os meus, nossos, funcionários durante mais quatro anos, mesmo que os funcionários sejam outros, mas nós e nossos problemas seremos os mesmos.
José Augusto G. de Almeida em: http://amoraspalavras.zip.net
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