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Homens ou Ruminantes?

Há algum tempo atrás, quando acordava de manhã, tomava meu café amargo, pegava meus irmãos menores pelos braços e ia até o fim da minha rua ver uma manada de bois que todos os dias estavam lá, no fim da rua, dentro do cercado de uma pequena fazenda situada na frente de minha casa.

Enquanto meus irmãos divertiam-se correndo em volta de uma árvore cantando as canções aprendidas na escolinha, eu me sentava em um velho banquinho de madeira, construído por um morador dali, e ficava observando os animais. Percebia um ar de monotonia e estupidez nos olhos deles: acordam, e comem pasto o dia inteiro.

Ao som de “A Casa”, do saudoso Vinícius de Moraes, ficava eu a lembrar das lições aprendidas sobre o Comunismo, no Ensino Fundamental, e tentando entender porque nós seres-humanos dotados de inteligência superior, nos comportamos como aqueles bois: “sob os que insistem em dominar aquém da ética e além da lei” – como dissera Nélson Jahr Garcia na apresentação do livro Revolução dos Bichos, de George Orwell; tentando encontrar que fosse um motivo para que um homem trabalhe o dia inteiro (come pasto), e chegue em casa ligando a TV (dorme) sem ouvir o que o filho aprendeu na escola, enquanto a mãe ansiosamente espera o momento da próxima novela começar e saber quem matou fulana de tal, sem se dar conta que está sendo “influenciada por uma ideologia” e que em poucas semanas vai estar se vestindo como uma das atrizes.

Sempre quis saber o motivo exatamente disso: “de não estarmos vivos”; de apenas “estarmos vivendo” enquanto a “banda” da ideologia toca. De “termos nos tornado meras construções sociais e perdido toda a nossa originalidade”: temos nos portado como a manada de bois da minha rua.

O homem, como “ser social”, é influenciado por suas experiências e relações, pelos seus demais “sócios”, e com isso nos guiamos muitas vezes por experiências passadas criando um tipo padrão sobre pessoas com determinadas características, julgando de antemão. Aí se dá o preconceito, e na maioria das vezes agimos de acordo com nossos preconceitos.

Para nós adequarmos-nos nos diversos grupos sociais, nas diversas instituições que circundam nossa curta existência – a igreja, a família, a escola, o Estado entre outras – aceitamos nos abster de certos desejos e damos poder para que elas nos imponham certos limites: sofremos influência em prol do bem comum. Aceitamos ideologias. A partir do momento em que um bebê nasce, bebe ideologia, respira ideologia, come ideologia, ele começa a mamar teorias com o leite materno. Aristóteles já dizia que “somos aquilo que fizemos repetidamente”. Aí podemos concluir que nós somos o que nós pensamos, somos uma construção de tudo aquilo que aprendemos com o nosso meio social no decorrer de nossas vidas.

Nós somos, em grande parte, o que os outros nos dizem, ou que acham que somos. E na medida em que nós vamos percebendo o que os outros pensam e acham a nosso respeito, nós vamos formando nossa identidade. É claro que não é só isso que forma nossa identidade. Nós podemos também refletir, tomar consciência do processo de como a gente é o que é, e tentar mudar. Mas em grande parte, nós ficamos condicionados à influência dos outros, inclusive pelo fato de termos de aceitar a própria linguagem e as definições das coisas que os outros nos deram.

É só voltar ao cenário dos bois: porque estão sempre ruminando? Porque imitam-se, porque aceitam estar sob o domínio de um boiadeiro. Nós aceitamos nossa condição também. E acabamos nos acomodando e aceitando todos os problemas que surgem desse comodismo: corrupção, miséria, fome, doenças, domínio e tristeza de todo tipo, e nada fazemos para mudar a situação: preferimos ruminar ideologia, ruminar comerciais de cerveja, ruminar noticias distorcidas. Disse John Dryden: “primeiro fazemos nossos hábitos, depois nossos hábitos nos fazem”.

Muitos não tem acesso à verdade que nós que ingressamos em um curso superior temos. Então cabe a nós, cabe à sociologia e à filosofia desvendar essa verdade: ensinar aos seus “discípulos” e a todos que é necessário ter uma visão crítica; que é necessário ver a totalidade. A sociologia interessa a todo aquele que deseja ver a mudança, àquele que não está contente apenas com “o que está aí”.

Ellen Vieira

2008-03-07 Interessantes ELLEN VIEIRA ELLEN VIEIRA
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