Há honestos e honestos.
Há honestos e honestos.
O jovem pensador tinha uma sede insaciável de conhecimento. Não perdia oportunidade de levantar questões para provocar respostas do mestre, que lhe enriquecessem o saber.
-Mestre- disse o neófito - entendo a honestidade como uma virtude fundamental para a formação do caráter. Sem ela não podemos formar personalidade sadia, forte, marcante.
O mesmo ouvindo atentamente a dissertação do jovem, expressou olhar de concordância, ao tempo em falou;
-Também entendo desta forma. Mas, o que é ser honesto?
-Posso dizer que ser honesto é não tomar posse do que não é nosso? Não nos apropriarmos do que é alheio?
-Claro. Mas há quem tenha um entendimento muito mais amplo sobre o assunto.
-Não entendi.Ser honesto é a mesma coisa, aqui ou em qualquer lugar! Provocou o neófito.
E o mestre continuou:
-O conceito de honestidade está relacionado com o nível de compreensão que se tem da vida. O que para uns é honesto para outros pode não ser. Vejamos a questão do uso do tempo: enquanto uns pensam que podem dispor do tempo ao seu bel-prazer, há quem entenda que ele não lhe pertence, não é propriedade sua. Sendo o tempo uma concessão Divina, não se deve dispor do mesmo, a não ser de uma forma laboriosa e construtiva. Note o exemplo dos que se dedicam incansavelmente ao bem: eles se entregam à causa do amor ao próximo ininterruptamente, sem cansaço, muitas vezes superando condições adversas de saúde. Alí encontram o alimento indispensável ao refazimento de suas energias e entusiasmo. E não raros são os exemplos que podem ser mencionados de almas abnegadas e anônimas, que assim servem, no silêncio.É claro que o corpo físico necessita de repouso, mas esta necessidade é minimizada pela energia salutar que retorna a si. Estar ocioso ou usar mal o tempo para eles não é honesto. "Matar o tempo" então é um crime.
-É verdade. Ainda não havia feito essa reflexão. Mas, quais outras situações pode mencionar em que o conceito de honestidade varia? Perguntou o neófito, buscando saciar sua curiosidade.
O mestre, como que sintindo certa ansiedade no interlocutor, apressou-se em continuar:
-O entendimento sobre qualquer assunto sempre será visto com maior ou menor profundidade, a depender do observador. As parábolas do Mestre Jesus são um exemplo claro: cada um que as lê, interpreta-as com a profundidade que lhe é própria. Veja o que acontece nos relacionamentos: para uns é indiferente simular afeição, porque o sentimento alheio pouco ou nada lhe diz respeito. Para outros, não é honesto assumir compromisso afetivo que não queiram ou não
possam cumprir; estes entendem que o sentimento do próximo é algo que muito deve ser prezado.
-Continue, provocou o jovem.
-Outra situação? Uns, vivem à margem esperando a vida passar, indiferentes ao crescimento pessoal, enganando a própria consciência. Há honestidade em ludibriar ainda que a si? Já outros estão sempre atentos, afastando qualquer situação mental que posso levar à acomodação, vivenciando atitudes construtivas que valorizem o existir
O jovem, entendendo que já chagara a hora do mestre se ausentar, maneou a cabeça como se compreendesse que, além da boa ação, o tempo e a reflexão são indispensáveis ao aprendizado.
E vendo o mestre prosseguir estrada afora, ficou a barbuciar:
Ah! Há honestos e honestos!
Leones Soares
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