Envelhecimento e auto-estima
Nós só nos tornamos escravos se alguém nos
convencer de que não prestamos,
seja física, intelectual, moral, emocional
ou socialmente.A auto-aversão é
o caminho seguro para a depressão, para
a perda de ligação com a vida, para a
venda da alma. Nada mais natural e óbvio
do que o amor a si próprio. Nascemos
assim e depois com educação vamos
aprendendo a nos desprezar e a
nos hostilizar.
Ao nascermos, embora já nos amemos,
não sabemos ainda quem somos.
Ao crescermos, alguém vai nos dizer
quem somos, aprendemos a nos ver
como olhar do adulto,em geral, o pai e
a mãe. Esse olhar do outro, via de regra,
é usado como instrumento de controle.
Para isso, temos de ser críticos. Bruto,
burro, estúpido, preguiçoso, teimoso,
difícil, raça ruim, mentiroso etc. é o que
nos falaram que éramos. Embutidas nas
críticas a necessidade e a possibilidade
de sermos perfeitos – a primeira grande
mentira a que fomos condenados.
Muitos passam a vida inteira querendo
realizar o impossível: ser perfeito
para ser amado. Auto-estima é o
contrário disso: eu me amo, sem condições.
É difícil, já que aprendemos,
desde cedo, o amor condicional. Seremos
separados: os justos e os pecadores,
o joio do trigo. Só se esqueceu de
nos contar que todos nós somos justos
e pecadores e somos feitos de joio e de
trigo. Daí um passo para um conceito
falsificado de auto-estima. Minha estima será
elevada se eu conseguir ser jovem,
rico, magro, bom, passar em um
concurso, tiver fama, for promovido.
e, sobretudo, ser amado. Isso não é auto-
estima. É estima da imagem idealizada
que nos persegue e auto-aversão
à própria humanidade.
A leitora acima escancara a raiz de
seu sofrimento: delírio de onipotência,
querer apenas ser Deus. Eterna (não
aceito o envelhecimento, gostaria que o
tempo não passasse...). E, como nunca
será, só lhe resta a conseqüência: uma
tristeza profunda e duradoura, provocada
pelo confronto entre o que ela e todos
nós somos e o que ela gostaria de
ser. Quem lutar contra o tempo já entra
derrotado. É lutar contra si mesmo, real.
Não existe a alternativa entre aceitar ou
não o envelhecimento. A alternativa é
entre aceitar e sofrer. Enquanto a leitora
se enclausura na autopiedade, de preferência
diante do espelho, e num quarto
em penumbra todo à prova de vida, o
mundo inteiro se escancara à sua disposição:
o Rio Jequitinhonha continua correndo,
as estrelas brilhando, as bochechas
dos netos esperando um beijo, os
ouvidos das companheiras de idade esperando
avidamente umas fofocas, as
cores, os cheiros, as piadas, tudo disponível
para o gozo.
Para nos amarmos, temos de desenvolver
um olhar crítico para com a sociedade.
Devemos aceitar suas crenças,
valores, padrões como sugestão e não
como determinantes, sobre tudo no que
se refere ao envelhecimento. A estética
padronizada e centrada na juventude
nos afasta de nossa interioridade e nos
priva da jovialidade presente em qualquer
idade. Tudo na vida é bonito. Pior
do que envelhecer é aceitar o convite
social para morrer antes da hora, emocional
e espiritualmente. Envelhecer é
ter a oportunidade de usufruir por mais
tempo a dádiva da vida. Vejo uma diferença
entre “envelhecer” e “ficar velho”.
É a mesma diferença entre estar acabado
ou em acabamento.
Envelhecer é aproveitar a transitoriedade,
em sintonia com ela, usufruindo
tudo o que for possível, independentemente dos limites
naturais. Envelhecer é
viver. Ficar velho é lutar contra a correnteza
do rio. É lamentar os próprios limites.
A vida aconteceu e sempre acontecerá
no momento presente. Essa conexão
com a vida,o envolvimento com a energia
vital de que dispomos atualmente
coloca a idade cronológica em uma posição
absolutamente secundária.
Sentir-se velho é uma decorrência
natural de quem ocupa a mente com
pensamentos emprestados relativos ao
envelhecimento. A vida não é para ser
conservada, mas para ser vivida. E ser vivida
não quantitativa, mas qualitativamente.
Viver com qualidade é viver
com amor o que é.
Uma rosa é uma rosa e será uma rosa.
Mesmo que não queiramos!
AUTOR: ANTÔNIO ROBERTO
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