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Discurso de Colação de Grau Direito/AESO - 2005 - Homenagem aos pais

Ilma. Prof. Ivânia de Barros Melo, senhores membros da mesa, colegas formandos, prezados pais e convidados aqui presentes, boa noite!

Um soldado alemão da 1a Guerra chamado Erich Remarque, que escreveu um livro intitulado Nada de Novo no Front, antes de se alistar, seguindo quase uma tradição entre os jovens, tinha pensado em várias frases eloqüentes e patrióticas para falar na hora de sua morte. Isso se constituía quase que ritual de iniciação. Entretanto, quando atingido, vendo a morte se aproximar, ele só conseguia chamar por sua mãe. Ele escreveu que isso era quase uma constante entre os soldados que estavam morrendo, pois mesmo os mais intrépidos, diante da morte, chamavam por seu pai ou sua mãe.

Dessa narrativa podemos tirar ou uma idéia cômica: de homenzarrões chorando por seus pais no campo de batalha ou, em contrapartida, podemos notar uma idéia profunda e complexa ao perceber a grandiosidade da relação entre pais e filhos. Esta relação, boa ou má, intensa ou distantes, existente ou até mesmo inexistente vai determinar profundamente quem somos e como viveremos.

Para Erich sua mãe era naquele momento uma idéia, um conceito de conforto e segurança, uma luz em meio à barbárie. Talvez para outrem, um pai pode ser figura de inspiração e força; como também uma mãe sendo figura de tristeza e sofrimento e etc. É justamente nesse ponto que reside à grandiosidade a que me refiro: os pais, bons ou maus, biológicos ou não, presentes ou ausentes, necessariamente se tornam conceitos, idéias, valores para os filhos. Observe que não é qualquer indivíduo que consegue se fazer presente na alma de outro. Pessoas se inspiram com outras, pessoas se modelam baseadas em outras, mas ninguém consegue estar tão arraigado na alma de alguém quantos os pais. Trata-se de imagem com tamanha força que consegue definir quem somos e como viveremos.

Se vocês pais, vêm seus filhos aqui hoje recebendo graduação, tenham certeza que fizeram muito mais que pagar suas custas – vocês conseguiram esculpir, com suas imagens e exemplos, no mínimo, uma disposição para progredir na vida. Vocês são vencedores, pois conseguiram realizar com sucesso talvez a mais complexa e difícil tarefa humana: a de levar um filho a um caminho profissional. Enquanto tantos outros pais falharam, a vocês é devida uma homenagem.

A cultura judaico/cristã considera essa homenagem como um dos 10 mandamentos: honrar pai e mãe; entre povos asiáticos são erguidos verdadeiros altares dentro da casa dos pais mortos; na cultura romana, os antepassados eram confundidos e adorados como deuses do lar; na cultura indiana, todo e qualquer empreendimento deve ser iniciado com um toque e conseqüente beijo no pé dos pais; Aqui no nordeste, quem bate na mãe vira lobisomem. A existência de tais homenagens está presente em toda e qualquer cultura, talvez pelo fato de celebrar uma relação um tanto desigual: no início eles já começam nos dando o mais valioso presente, que é a vida - mesmo os pais não biológicos, que apesar de não conceder a vida física, presenteiam seus filhos com a possibilidade dessa vida ser melhor – depois ele continuam nos ensinando, suportando os choros, as birras, vasos quebrados, braços quebrados, as confusões, as notas escolares, a janela vizinha quebrada, o namorado malandro, o carro do pai furtivamente emprestado, tudo de tempestuoso e funesto que só um bom “aborrecente” consegue fazer. Essa conta toda é paga com amor. Geralmente fica bem paga, mas uma homenagem até que cai bem.

As mãos que um dia nos ajudaram a andar pela primeira vez, agora nos colocam um anel. Mãos que nos guiaram; socorreram. Mãos que nos afagaram e também puniram. Mãos que são de nossos pais. Qualquer homenagem, loa, canto, grito é pequena para nossos pais. Vocês nos deram tanto e apenas o que desejavam era que conseguíssemos ser felizes. Verdadeiro amor divino, verdadeira entrega de si a outrem. A sublime expressão do que é ser humano está nos pais. Se dentro do homem, realmente existe algo de belo e bom, sua voz soa mais alta quando se é pai ou mãe.

Homenageemos nossos construtores, nossos guias, nossos modelos. Homenageemos sua coragem, sua determinação e capacidade de nos trazer aqui. Saudemos glória, pela sorte de possuir como pais estes descomunais pilares. Um tributo àqueles que com sua força conseguiram vencer a pobreza e proporcionar estudo e condições melhores que as deles. Celebremos a memória de heróis que faleceram e não puderam estar aqui hoje, observando seus frutos. Exaltemos aqueles pais, que por motivo de doença não puderam participar dessa festa. Nossos corações estão com eles.

Por fim, também é momento de agradecer. Esta conquista de agora é produto de nossos pais. Eles construíram este momento desde o dia em que nos deixaram aos prantos, para o primeiro dia do maternal. Cuidaram de crianças e hoje eles vêem homens e mulheres. Palavras não são capazes de traduzir toda gratidão que devemos ter. Nenhuma palavra conseguiria significar por completo a gratidão que se dever ter ao receber de presente as condições de caminhar nossas vidas com tranqüilidade por agora termos uma profissão. Como não há palavras, deixemos isso para linguagem própria do amor. Enquanto esta se expressará através da vida, digamos um muito obrigado aos nossos pais e principalmente a Deus, pois como um provérbio Hebreu ensina: “como não podia estar em todos os lugares, Deus criou os pais.”

2006-07-07 Outros textos Guido Rafael Guido Rafael
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