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Dinheiro fácil, mas não tão fácil 2

Doril estava impaciente. No dia seguinte, o novo bico. Na cabeça rolavam mil projetos. Casa nova, tirar os meninos da creche pública, enfim, o conforto tão esperado. Na imaginação, já gastava por conta, nos projetos nunca concretizados. Rezava para a ronda noturna ser calma e tranqüila. Queria apresentar-se no bico, “inteirão”, sem cansaço. Doril era bem apessoado, 1,85 de altura, 85 kg., loiro, olhos claros. Sujeito benquisto no meio feminino.

Mas, qual o que! As coisas não correram como esperava. Era verão, noite quente, convidativa. Doril, já desconfiava, e, pela experiência, sabia do desfecho. A melhor policia do mundo, era a chuva e o frio. As ocorrências diminuem, vitima e marginais não saem de casa. O movimento cai! Ficam entocados em casa. Ocasião em que a ronda corre tranqüila, permitindo até, um cochilo na madrugada.

As ruas estavam super movimentadas, trânsito, gente e bares cheios. Tudo rolando solto! –Bebidas, diversão, drogas, etc.! Clima propicio para tudo... Tudo mesmo! De bom e ruim!

O rádio da viatura passa ocorrência de assalto, com seqüestro relâmpago, visando caixas eletrônicos. Covardemente, os assaltantes fazem vitimas de reféns, garantindo a fuga. O operador descrevia três elementos armados, usando carro escuro, placas não anotada, provavelmente da vitima.

Doril conhecedor da área ficou à espera, de "campana", em ponto estratégico, usualmente utilizado pelos marginais, quando em fuga. Quase sempre “pirulitavam” para a área mais miserável da Zona Norte. Eram 22 hs, os caras estavam barbarizando, arrepiando, já eram vários seqüestros.

De repente, cruzam um carro que coincidia com a descrição. Chegam mais perto. A viatura de Doril, um Santana, turbinado, bom de “pinote”. O motorista da “barca” era um crioulo antigão, bom de braço, chamado pela rapaziada de Fitipaldi! -malandro, "puta-velha"! -na manha do gato, segue o carro, - ora bailando na via, - ora se distanciando um pouco, deixando os caras nervosos. Não deu outra! -"os malas" ao pressentirem a viatura, se acanham e imprimem mais velocidade, se "caguetando". Já deviam estar se borrando todos! Nessa hora, ao se volatilizar o efeito da droga, coragem vira “cagaço”.

O carro era um Vectra, verde escuro. Fitipaldi emparelhou e Doril meteu o farolete. Lá dentro, só figurinha carimbada! -com aqueles “zoião” de "nóia", muito loucos, chapados. Não deu outra, tudo conferia. Eram os caras! Doril usando o megafone numa mão e o “três oitão” noutra, mandou parar, mas, nada disso! Foram de “pinote”, pneus cantando e o escambau.

O rádio alertava Doril a agir com cuidado. Os reféns poderiam estar no porta-malas. Nunca se sabe. Estava virando moda. Nisso, o “carinha” do banco traseiro, quebra o vidro, põe meio corpo pra fora: - uma “turbina” em cada mão, e... ! -atira na viatura! Era só mecha voando, e barulho dos furos na lataria da viatura! Doril, no microfone, dá a posição e pede reforço, e de imediato, engatilha a “matraca”, uma Beretta nove mm., cm 60 “arrebites” no pente. Cuidadoso, não revida, senão, o porta-malas vira peneira, e daí... Bye, bye, reféns!

Para Fitipaldi, “piloto de fuga” de ladrão, não tinha vez! -não deixava o cara, tirar farinha! Era ali, no mano a mano. Era só esperar, num vacilo, a casa dos “trutas” caia. Ficou na “cola” do carro, esperando, paciente e cauteloso. A qualquer momento, a chance, dava o bote. Era sempre assim. Não se tinha noticia de Fitipaldi ter perdido algum pinote.

Mas, os caras não estavam nem aí! Ripando e voando, mandavam ver! Corriam em zig-zag, fazendo tudo que tinham direito. Pelos “pipocos” dos disparos, usavam 38 e nove mm., e por aí afora. Que noite, pensou Doril, bem na véspera de se apresentar no bico.

De repente, numa manobra imprecisa, o carro dos "malacos" desgovernou-se e bateu num poste. Foi aquela quebradeira, da lataria, e dos vidros estilhaçando. Na porrada, uma porta abriu, e um deles, foge sem olhar pra trás, deixando o “cano” cair. Tinha perdido o apetite! A outra porta, não! Ficou emperrada! Facilitando a abordagem dos policiais. Os outros 2 se "cagavam"! Tiveram sorte de não reagir! Senão: -era a especialidade de Doril, --havendo reação; o dedo ficava mole e a metralhadora virava maquininha de furar moletom; -mandava ver, -sem dó, -nem compaixão, -pois lugar de sangue ruim e cabra safado é no inferno! Nenhum ferimento neles! -sempre assim! - vaso ruim não quebra! Se fossem os policiais...

Enquanto os dois eram interrogados pelo eficiente método do pauligrafo, Doril abre o porta-malas, então, a surpresa, um casal de namorados, assustados, brancos que nem cera. Felizmente nenhum arranhão. Já fora do carro, relaxados, entre carinhos e afagos, mas afobados, relatavam o ocorrido. O pior já passara. Misturavam beijos e lágrimas, abraçando os policiais, que nessas horas são bem-vindos e lembrados. Doril ficava envaidecido, sentindo-se recompensado e feliz, pelo dever cumprido!

Foram para o Distrito, onde a autoridade, toma as providencias de praxe, tudo nos conformes. Por fim, agradecimentos e despedidas. Na viatura, Doril confabulava com seus botões para que o resto da noite fosse tranqüila. Mas, ao contrário, mais ocorrências de assalto, "zicas" de bêbados e briga de casais. Foi assim a noite inteira. Fora uma noite de cão, movimentada e típica de verão. Iria para o novo bico em frangalhos.

2008-03-30 Outros textos Brownsugar Brownsugar
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