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Dinheiro fácil, mas não tão fácil....

Dorion: -parece remédio, mas é nome mesmo, ou Doril, como os mais chegados chamavam: -Era um policial, daqueles raçudos, pedra 90, eficiente e atuante na corporação. -Encarava rondas em bairros violentos de Sampa, correndo atrás de bandidos, trocando tiros a torto e a direito, na incerteza de voltar vivo para casa. Por várias vezes fora manchete dos jornais.

Eram noites cansativas e estressantes, numa cabreiragem só, pois se marcar bobeira, já viu !! -"vai pro saco" !!! Rondas que ao final eram ironicamente compensadas, com um sanduba, composto de pão amanhecido e 2 fatias, uma de queijo e outra de apresuntado, carinhosamente chamado de “X Miséria”. Contrastando com o fim de noite dos bandidos, que sempre terminava nas boites Cave, Belo Brummel ou La Licorne, todas na famigerada boca do luxo, ou comendo o delicioso file do Morais, na Praça Julio de Mesquita.

Doril andava sempre, pensativo, preocupado e cabreiro. Muitas vezes não concordava com o que fazia, mas e daí, tinha de sobreviver. Então pau na máquina, sempre correndo, que atrás vem vindo gente.

Estourando barracos miseráveis na zona norte, invadindo domicílios, cometendo arbitrariedades, na caça de "malacos e trutas", ficava constrangido, por ver a vida desgraçada, levada por muitos, que amontoados, dividiam um cômodo, muitas vezes entre 10 pessoas. -Fazia-o refletir e se culpar, já que a situação em que vivia não diferia muito da deles, em razão do parco salário que recebia. Vinha descrita no holerite, ou atestado de pobreza, como dizia, aquela miséria, ou “quase nada”, que mal dava pra pagar o aluguel, quanto mais o resto.

Ninguém, melhor do que ele, sabia das injustiças sociais e desigualdades, que acabavam levando jovens a delinqüir, seja por falta de estudo ou oportunidades. Ele mesmo, tinha passado por isso, e, supostamente vencedor, no intimo, aquilo tudo fazia-lhe muito mal. Vida desgraçada a sua. Era pobre combatendo miserável. Sabia que o problema era social e não policial, mas o que fazer, ordens superiores tem de ser cumpridas. O comandante quer a área limpa.

Sabia que a luta era desigual. -No exército numa preleção hilária, Doril ouvira dizer, que;- “a vida é um amontoado de pinicos”, então é importante, que não seja o último”, senão, já viu, né ?: -É sujeira só no de baixo. Na preleção, o sargento lembrava: -que ao menos, fosse um pinico intermediário, assim, quando vinha de cima, mandava-se pro de baixo. Nunca esqueceu essa lição.

A situação em que sua esposa e filhos viviam o deixava na maior neura, com vergonha de si mesmo. Era cobrado por ela diariamente, e sua dignidade de homem também pegava no pé, mas que fazer. A luta pela sobrevivência continua.

Ficava mais puto quando vez ou outra cruzava os "malas", com carrões, muita grana e ainda pagavam um mico, tirando um sarro com a cara dele. Dava vontade de puxar o cano e tomar uma atitude. Mas, deixava pra lá, nada como um dia após outro, e hora dessas, o peixe caia na rede. Era sempre assim, nunca viu ladrão ou traficante desfrutar sua riqueza até o fim, não sabem parar. Estão sempre no prejuízo. Quem ganha é o advogado, o jornal, o policial ou juiz, que são promovidos, e eles, óóó: -sempre tomando na “tarraqueta".

Resolveu procurar trabalho, para as horas de folga. Havia vários tipos de bico: -em postos de gasolina, onde se tornava alvo fácil de assaltantes ou em boates, bailes, e até bicheiros, transformando-se em verdadeiro leão de chácara, e , ainda outros, mais suspeitos, onde acabaria se tornando conivente com a contravenção ou o crime.

Então deixa quieto, pensou. O que é do homem o bicho não come. Doril, preferia esperar e arrumar algo melhor, assim poderia dormir de cabeça fresca. Muitos, sem paciência, volta e meia, eram exonerados ou presos, pondo o trabalho e a carreira a perder. Pra que:- só pra trocar o carro velho por um menos velho: -besteira!! -é tudo supérfluo. Doril pensava: -de que vale uma grana fácil e temporária, e de repente, se perde tudo ! -e pior, -!ficar sem moral perante a família. Decidiu esperar.

Soube que alguns colegas trabalhavam em agencias de cambio, na zona central, transportando altas somas, de reais e dólares. Era arriscado, mas compensava, ganhava-se até 4 vezes mais do que na Policia, além de todos os benefícios sociais e alguns, ainda ganhavam o 14º ao fim do ano. Era mosca branca. –Mamão papaya: -Uma beleza !! -Quem encontrasse uma boquinha dessas, estava “bonito”, ou, “às pampas”, com se diz.

Então, passou a pesquisar e procurar. Estava difícil, era, mais ou menos, como no samba do crioulo doido: -quem ta dentro, não sai, e quem ta fora não entra. Depois de muito custo, um tira conhecido, acabou arrumando o sonhado bico.

Era numa agencia de cambio na Avenida São Luiz, esquina com Avenida Ipiranga, centro de São Paulo. –Mas foi logo avisando: -Aqui é tudo na palavra, não precisa Carteira Profissional, nem escrever nada, então: -é o seguinte: -aqui, se ganha “os tubos”: - mas vou te dar um ”toque” -tem que ficar na moral, na miúda, sem falatório, perguntas, nem curiosidade: -senão o patrão põe pra rodar. –Deu pra entender ? –Captou ? -então vê lá, senão é o meu que ta na reta. -Doril, ansioso pelo bico, nem perguntou por que, e, ao saber o tamanho da “mussarela” que ia ganhar, ficou calado, prometendo a si mesmo, juramento eterno, pois em boca fechada não entra mosquito.

*vai pro saco=morre

*malacos e trutas=marginais

*malas=bandidos, malandros

* estar bonito ou às pampas=estar por cima

*os tubos=muita grana

*dar um toque=avisar, alertar

2008-02-17 Outros textos Brownsugar Brownsugar
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