Cheiro de morte
Era sábado. Mais ou menos onze da manhã. Eu voltava do trabalho. Tive que acordar muito cedo, houve comemoração do Dia dos Pais lá no trabalho, foi uma homenagem simples, porém emocionante.
Foi necessário esperar um pouco no ponto final, já que não havia ônibus lá. Assim que um chegou, subimos e fui me sentar em um dos útlimos bancos, próximo a porta de desembarque.
Fazia calor, embora fosse inverno, os termômetros marcavam 28ºC. Quando saí de casa, às 7h da manhã, fazia 10ºC, mas a sensação era de bem menos.
Ônibus quase lotado, partiu.
Alguns pontos depois, sobe uma senhora com algumas sacolas nas mãos. Seu rosto mostravam rugas, mas não eram rugas de velhice, mas sim dos seus sofrimentos que eram reforçados por um olhar triste e profundo, embora sustentasse um sorriso na face rosada.
Uma boa alma lhe ofereceu o assento. Ela não aceitou. Disse que logo desceria. O senhor insistiu em levar as salocas. Ela concordou. Mas uma ela se recusou a entregar. Sentira necessidade de explicar. Todos à sua volta a olharam quando a ouviu dizer:
_ É para meu filho.
Era uma sacola especial. Nela parecia haver um tesouro. A pobre coitada, trajando roupas gastas, balançava-se com o movimento do veículo, só que a sacola permanecia imóvel.
Sorriu. Um sorriso de mãe quando sabe que aquelas flores eram apenas um símbolo para deixá-la mais perto de seu filho.
Deu sinal. O ônibus parou. Ela desceu, ofegante. Parecia ter pressa, como se o filho não a esperasse.
De súbito, ouvem-se gritos de desespero ao som de um estrondo. A pobrezinha estava estirada no chão. Morta. As flores se mantiveram intactas ao lado daquele corpo ainda quente, exalando um aroma fúnebre, o mesmo que exalava dentro do ônibus.
José Augusto G. de Almeida em: http://amoraspalavras.zip.net
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