SUPER Textos

BENEDITO XAVANTE

Lá pelos idos de 1.976, eu era um vendedor de adubos e trabalhava na firma, Barrafértil Ltda sediada na cidade de Barra do Garças, estado de Mato Grosso. Percorria toda a região leste de Mato Grosso utilizando um fusca para coletar terras nas fazendas para a conseqüente análise. Cada terra de fazenda coletada e analisada significava uma posterior venda de adubos. Enfim, rodava pelo sertão bravio onde o progresso ainda não havia chegado. Num dia comum igual aos outros, transitava por uma estrada de chão e ao aproximar-me de um pequeno riacho, fui cercado e rodeado por uns trinta índios Xavantes. Ao derredor só se via uma vegetação de cerrado. Sem que soubesse, estava naquele momento atravessando uma reserva indígena. Parei meu veículo e desci. O que parecia ser o chefe, como de fato o era, usava óculos e aparentava ter defeito na visão, veio em minha direção dizendo:

- Tem comida?

- Tenho, por que?

- Preciso sua comida para dar minhas crianças.

- Expliquei-lhe que o que tinha era o suficiente para minha alimentação naquela viagem que duraria alguns dias e, sendo assim, poderia oferecer-lhe somente um pouco para ele dar para suas crianças. Dissera-lhe isso tudo com seriedade, sem demonstrar o medo que estava experimentando. Dei-lhe alguns pacotes de bolachas, alguns pães, treis carteiras de cigarros e um facão que ele me pedira.

- Então, tá bom, mas tem mais índio pr’a frente. Se não der não passa, por que está atravessando nossa reserva.

- Passo sim de qualquer jeito e se tentarem me impedir, passo carro em cima. Apesar de respeita-los, não tenho medo de índios e de nada, disse-lhe.

Entrei no veículo, acelerei e fui embora. Pelo retrovisor notara que riram muito de mim. Na verdade durante todo o trajeto daquela viagem não encontrei mais índios no meu caminho, graças aos céus. Fiz todo o serviço programado, retornando para minha cidade.Passados alguns anos daquele encontro, agora no ano de 1.986, eis que surge em minha residência, aquele índio Xavante, o que tinha defeito na visão e que eu dera as bolachas para suas crianças, dizendo:

- Ocê é Maurílio? Ta lembrado de mim?

- Sim. O que quer desta vez?

- Eu sô Cacique Benedito Loazo, chefe Xavante da aldeia Nossa Senhora Aparecida, Mato Grosso. Vim aqui pr’a te convidar para batizar filho meu, Fortunato que acabou de nascer.

- Surpreso, perguntei-lhe por que estava me convidando para ser seu compadre?

- Porque gostei de ocê desde aquele dia que nos encontramos lá no mato. Ocê num demonstrou medo e tem coração bom. Todos de lá gostaram de ocê, por isso vim aqui procurá-lo.

- Respondi-lhe que iria consultar minha esposa e tudo dependeria dela.

No outro dia subseqüente, o índio me aparece novamente, dizendo:

- Oi cumpadre, cumadre aceitou?

- Minha esposa aceitou , iremos batizar seu filho. Seremos compadres.

- Cumpadre, no meu idioma xavante chamar, Danhohui’wa, que significa, padrinho.

Então, daqui uns 5 meses eu venho com ele da aldeia para o padre fazer o batismo.

O índio despediu-se e saiu todo contente de volta para sua aldeia. Nesse ínterim, o compadre todas as vezes que ia na Funai em Brasília, passava em minha casa quando conversávamos longamente sobre a problemática enfrentada pelos índios. Num certo dia, numa dessas vindas em minha residência conversávamos sobre muitos assuntos. Conversa vai, conversa vem, lembro-me de lhe ter perguntado o seguinte:

- Compadre Benedito, você sempre me falou das lutas que sua tribo travou contra o civilizado, pormenorizando alguns detalhes, muitos dos quais aconteceram quando você ainda não havia nascido. Como você sabe desses acontecimentos?

- Bem cumpadre, nossa Cultura Xavante vem de muito longe e nos foi repassada de geração em geração por nossos antepassados. Nóis não morava em Mato Grosso. Antigamente, quando éramos conhecidos por Tupinambás, nóis morava em Goiás. No séc. XVII tivemos muitas lutas com os brancos que viam buscar ouro. Sofremos toda sorte de maus tratos. Tivemos muitas baixas, porque nóis não tinha armas de fogo e eles tinham muitas. Sofremos na carne, pois os fazendeiros e garimpeiros chegavam e destruíam nossas aldeias, matando tudo que enxergavam, inclusive mulheres e crianças. Não queríamos contato com ninguém, mas em certa época os brancos militares conseguiram nos enganar, prometendo vida boa para nóis, que índio seria bem tratado pelo governo e colocaram nóis em aldeias protegidas por soldados. Tinha comida, remédio e roupa.

- Olhe compadre estou gostando de sua história, mas você sabe me dizer quando isso aconteceu, ou melhor, em que época?

- Cumpadre, isso que conto não é história, é a verdade das coisas. Ocê quer saber quando isso aconteceu e vou contar: "segundo nossos velhos, isso aconteceu perto do ano de 1.785, mais ou menos. Aceitamos então morar perto dos brancos. Durante algum tempo até que vivemos mais ou menos entrosados. Depois, mais uma vez caímos doentes pela transmissão de doenças dos brancos. Muitos de nóis morreram . Até as roupas que os brancos dava para nóis trazia suas doenças. Nosso contato foi ruim, péssimo. Certa vez os brancos colocaram veneno na água de beber, conseguindo matar quase nossa gente toda. Quase sumimos da face da terra. Vivemos em comunhão com os brancos aproximadamente uns 70 anos ou mais. Depois disso, já no século XIX, ficamos revoltados com a falta de ajuda das autoridades que não cumpriram com nóis sua palavra, resolvemos fugir para as florestas, atravessando o Berokãan para nóis, e Araguaia para ocês, fomos mais longe ainda, para o rio das Mortes, sendo que alguns de nóis foi para próximo da região da Serra do Roncador e alguns ainda foram para perto da divisa com Pará. Vivemos assim desde essa época longe dos brancos perto dos 100 anos."

- Compadre como vocês conseguiram sobreviver vivendo nas matas, longe de tudo e enfrentando todos os tipos de dificuldades?

- Ora cumpadre, como já falei, nossa experiência vem de muito longe, antes mesmo dos brancos europeus tomarem nossas terras, só existia índios no Brasil. Nóis somos os moradores mais antigos destas terras e, por isso, consideramos que somos os verdadeiros donos disso tudo aqui. Nóis fomos sim, invadidos pelo europeu. Nóis rimos muito quando o branco fala em descobrimento do Brasil. Estava esquecendo, nóis sobrevivemos da caça e pesca e de nossas roças de tôco, onde plantávamos a Mandioca, o Milho, o Kará, a Cana e outros, sempre utilizando o método, ôces dizem, calendário Solar, desconhecido dos brancos.

Após contar-me um pouco da epopéia da nação Xavante, o Cacique, Benedito Loazo retorna para sua aldeia, aguardando a data para a realização do batizado de seu filho.

Passados os 5 meses, o índio me aparece, desta vez lá em minha residência, acompanhado por sua mulher, pelo filho e mais duas índias, suas filhas.

Era um sábado. Fui direto na igreja matriz pensando que a realização de um simples batizado era coisa fácil. Qual não foi minha indignação quando os padres dessa igreja afirmaram que esses índios não eram cristãos e que, por isso, não poderiam efetuar o batismo. Meio que frustrado, dirigi-me à cidade vizinha, Aragarças, já no estado de Goiás, que é separada da cidade onde morava, Barra do Garças-Mt, por duas pontes de concreto, uma no rio Garças e outra no rio Araguaia, sendo que esse último representa o marco de divisa entres os estados de Goiás e Mato Grosso.

De antemão sabia que o padre Vicente, um Holandês, na verdade quase um santo, idealizador e executor da construção do abrigo de velhos, Lar da Divina Providência naquela cidade, me tinha como pessoa de bem, justamente por ter colaborado muitíssimo, juntamente com a advogada, Dra. Selma Valois e outros na construção do referido abrigo, poderia abrir um exceção para mim e batizar o indiozinho. Não deu outra, o referido padre marcou o dia e horário para realizar o tal batizado. Tudo combinado, tratei logo de providenciar o enxoval da criancinha índia. Como o dia marcado era para domingo, no sábado fui direto na loja de um amigo, Francisco Ivo Firmo, que além de me atender bem, doou todo o enxoval ao indiozinho, sem cobrar nada por isso. O nome da loja de meu amigo era Lojas Nacional.

Nessa época, recordo-me, meu automóvel era um Fusca, que não dava para agasalhar as pessoas que iam participar do batizado. Minha irmã, proprietária da concessionária Fiat, Auto Norte Ltda., cedeu-me emprestado um carro mais espaçoso, um Prêmio branco, novinho em folha. No domingo, quando deu as 14:00 hs., já estávamo-nos na igreja em Aragarças-Go., e logo em seguida foi realizado o batismo do pequeno índio, Fortunato Loazo. De volta para minha residência, um belo churrasco nos esperava. Os índios que lá estavam demonstraram grande contentamento com a recepção que lhes preparara. Foi realmente um dia muito feliz.

Enquanto as pessoas conversavam e comiam alguns salgados, mais afastados, eu e minha esposa conversávamos com o compadre Benedito e com a comadre Maria Justina, sendo que esta não falava nada em português, somente em dialeto Xavante. Por isso quando ela pronunciava alguma coisa, o compadre traduzia para nós. A conversa fluía normalmente, quando o compadre me confidenciou que o maior sonho da vida dele era dar instrução para os filhos e, por isso, me perguntou se quando o meu afilhado, o Fortunato, alcançasse a idade escolar se eu poderia traze-lo da aldeia para ele morar comigo enquanto estivesse estudando. Respondi-lhe que sim, argumentando que ele poderia ficar aliviado que eu bancaria todos os estudos de meu afilhado. Ele, Maria Justina, Fortunado e as duas filhas voltaram para sua aldeia.

Os anos passaram-se e, nesse meio tempo, aconteceu que o compadre Benedito fora assassinado, segundo membros de sua aldeia, por seus próprios sobrinhos por questões de terra.

Em 1.991 em um determinado dia, minha esposa me acorda dizendo: seus amigos índios estão ai. Parece que trouxeram nosso afilhado para ingressar na escola. Levantei-me e fui encontrar-me com eles que já se encontravam acomodados na sala de visitas. Estavam lá a minha comadre, Maria Justina, agora já viúva, duas filhas já moças, o Fortunato e um outro índio, o Irineu Xavante, que já era meu amigo e conhecido de algum tempo. A comadre, através do Irineu, que no caso era o intérprete, havia dito que ia deixar o Fortunato comigo para providenciar escola para ele. Afirmei-lhe então que as escolas de minha cidade não aceitavam, naquela época, criança com 5 anos. O mínimo que aceitavam era com 7 anos. Em conseqüência disso, o Fortunato regressou com sua família para a aldeia, ficando de vir morar comigo quando completasse os 7 anos. Aconteceu, porém, que depois dessa época, passados uns 80 dias da visita desses índios, meu afilhado estava brincando na aldeia perto de uma cerca de arame farpado, quando caiu-lhe um raio que o matou, morrendo o coitado prematuramente. Parece até que o menino tinha ido na minha residência para despedir-se de seus padrinhos. Depois disso minha ligação com a aldeia deles era realizada através do índio, Irineu Xavante que de vez em quando vinha na minha cidade e trazia notícias de todos. No ano de 1.996, mudei para Goiânia, capital de Goiás, ficando assim distanciado do povo Xavante. Agora neste ano de 2005, fiquei sabendo que o Irineu Xavante morrera num acidente de carro na BR 158, próximo à cidade de Nova Xavantina. Com isso fiquei sem qualquer notícia de minha comadre, Maria Justina, que com a morte de seu marido, passou a comandar os índios da aldeia Nossa Senhora Aparecida, localizada no estado de Mato Grosso. Até hoje sinto saudades do saudoso compadre Benedito, do saudoso Irineu Xavante, considerado meu irmão de fé, do saudoso afilhado, o Fortunato, e da sua família maravilhosa. Pretendo brevemente dar um pulo até aquela aldeia para rever a família do saudoso Cacique Benedito Loazo e poder abraça-los, pois me sinto muito honrado em ser padrinho de uma criança índia e ter podido participar de suas vidas durante o tempo em que residia em Mato Grosso.

2005-12-19 Interessantes Maurílio Alves Neto Maurílio Alves Neto
0 comentários 2978 visualizações 0.00 (com 0 votos)
  • Deixe seu comentário
  • Pontue este texto
    Quantas estrelas este texto merece?
  • Envie este texto por e-mail para seus amigos
  • Mande este texto para a impressora

Comentários

Nenhum comentário para este texto ainda.
Caso você considere este texto ofensivo, ou acha que, no mínimo, ele deveria estar na categoria Adulta,
clique aqui para denunciá-lo. Ele será avaliado e, se necessário, corrigido ou apagado.

Identifique-se





Cadastre-se grátis - Esqueci a senha

Categorias

Especiais

Busca