SUPER Textos

Ayrton Senna do Brasil

Senna foi símbolo de uma ética do trabalho que alguns teimam em considerar estrangeira

RUBENS RICUPERO

O presidente Itamar Franco traduziu em decreto oficial a sensação de todos nós: o Brasil está de luto. Vários cidadãos, colhidos nas ruas por repórteres de televisão, horas depois do acidente, expressaram com clareza a dor de todos os brasileiros – foi como se tivéssemos perdido alguém da família.

A morte de Ayrton Senna confirma justamente algo que muitos céticos teimam em negar: nos sentimentos mais profundos e espontâneos de cada brasileiro, o Brasil é uma grande família. Uma grande família que se une nas horas decisivas, na alegria e na dor. Uma grande família que chora a perda de um filho. Pouco depois de acordarmos no domingo, fomos arrancados de um dos nossos melhores sonhos: sonho de vitória, de alegria, de afirmação do povo brasileiro. Ninguém esperava por mais essa curva do destino. A vida é assim.

Ayrton Senna foi herói em uma nação de poucos heróis. Encarnou as qualidades menos visíveis de um povo cuja imagem tem sido associada principalmente ao prazer, à musicalidade, ao sensual. Aprendemos a admirar nele um homem que queria sempre mais, que buscava a perfeição com tenacidade, que fazia da disciplina um valor maior, que não media esforços para superar-se, quebrar recordes, vencer. Por vezes foi incompreendido, intimidou com sua obstinação a franceses, alemães e ingleses. Ninguém foi mais firme e dedicado que Ayrton Senna.

Por isso mesmo, perdemos domingo o herói do brasileiro comum, do trabalhador que não desiste diante da adversidade, do pai ou arrimo de família que caminha horas até o emprego quando não tem dinheiro para pagar o ônibus, do agricultor e do operário que não se cansa, mesmo quando tem fome. Não terá sido por acaso que Deus o levou no dia 1º de maio.

Senna foi símbolo de uma ética do trabalho que alguns teimam em considerar estrangeira, branca, européia, mas que na verdade é a ética que move a imensa maioria dos brasileiros anônimos. Como eles, como todos nós, Ayrton tinha orgulho de ser brasileiro, tinha emoção em ser brasileiro. Carregava o verde-e-amarelo nas cores do capacete, na bandeira sempre presente nas vitórias; por mais longe que estivesse, fazia questão de transformar em festa brasileira as suas conquistas pessoais.

Tinha o sentimento que acompanha os cidadãos de bem cujas vidas lhes abrem oportunidades, tinha o sentimento saudável e nobre de dívida para com seus compatriotas. Ninguém retribuiu mais e melhor ao país as chances que teve, quase exclusivamente por mérito próprio. Nessa conta que insistia em pagar, acabou sem qualquer dívida. Ao contrário, transformou-se em credor do eterno reconhecimento de todo um povo.

Ayrton Senna deixa uma herança de cidadania, de patriotismo na acepção mais alta da palavra. Mais do que ninguém, ele entendeu o que é ser parte de uma sociedade, de uma nação. Numa era de nossa história política em que as pessoas estão voltadas, sobretudo, para a realização de direitos, Senna quis ser a prova de que os direitos se alcançam pelo cumprimento do dever.

Cabe uma palavra sobre a dura experiência de domingo. Pela vida que escolheu, pelo modo como a viveu, Senna sabia que um fim trágico como o que teve seria compartilhado intensamente por todos nós. Fazer de sua morte um momento de união nacional é ser fiel ao que ele queria ser e significar. Cada um de nós deve refletir sobre as rápidas e dramáticas imagens transmitidas pela televisão, buscar apreender todas as lições que possam trazer, individuais e coletivas. Sobretudo é preciso explicar às crianças e aos jovens, de forma aberta e sincera, a importância desse acontecimento, todo o seu significado. É necessário que nossos filhos compreendam um instante que jamais irão esquecer.

Anos atrás, o mundo inteiro, mas particularmente os Estados Unidos, viveu uma experiência semelhante com a explosão da nave espacial Challenger, diante do olhar incrédulo e perplexo de milhões de telespectadores. Semelhante, ao meu ver, não apenas pelo aspecto da tragédia assistida ao vivo por adultos e crianças, da tragédia que abala todo um povo na intimidade de seus lares, na tristeza inconsolável das ruas. Semelhante, também, porque, para um país que ainda não manda homens ao espaço, Ayrton Senna foi o herói da vanguarda tecnológica, dos limites da velocidade; foi prova de nossa capacidade de vencer no que há de mais moderno e novo. Ayrton Senna foi o nosso astronauta.

E essa semelhança me leva a concluir este artigo com as palavras pronunciadas naquele dia fatídico de 1986 pelo então presidente Ronald Reagan, dirigindo-se às crianças: "Sei que é difícil entender, mas algumas vezes coisas dolorosas como esta acontecem. É tudo parte do processo de exploração e descoberta. É tudo parte de ousar e expandir os horizontes do homem. O futuro não pertence aos fracos de coração. Pertence aos bravos." Basta da caricatura falsa de "Macunaíma", pois o verdadeiro Brasil tem mesmo cara é de Ayrton Senna.

2008-01-24 Artigos Rubens Ricupero Maurílio Alves Neto
0 comentários 2408 visualizações 0.00 (com 0 votos)
  • Deixe seu comentário
  • Pontue este texto
    Quantas estrelas este texto merece?
  • Envie este texto por e-mail para seus amigos
  • Mande este texto para a impressora

Comentários

Nenhum comentário para este texto ainda.
Caso você considere este texto ofensivo, ou acha que, no mínimo, ele deveria estar na categoria Adulta,
clique aqui para denunciá-lo. Ele será avaliado e, se necessário, corrigido ou apagado.

Identifique-se





Cadastre-se grátis - Esqueci a senha

Categorias

Especiais

Busca