a visão de rosalem e o livro
extrraido do livro ´´os magos de santa ana´´- ruy crespo filho A VISÃO DE ROSALEM
Teatro do Espírito Santo, 19 horas, 6 de novembro.
No teatro sem dúvida não houvera outro igual. As profundidades soterradas da alma nunca tiveram um devassador mais audacioso e exímio como esse. Nunca o espírito se encontrara flagrantemente apreendido e fotografado. Nele, e com ele, dever-se-ia estudar a mais difícil de todas as ciências: A natureza humana.
É um prazer tê-lo conosco nesta peça. Finaliza o cartão de apresentação da estréia da peça Fausto de Goethe no teatro do Espírito Santo. Rosalem espera o Primeiro Ato..
20 horas.
O homem de terno preto, bengala e chapéu branco sentou-se na fila da frente. Roselem fingiu olhar distraída para ele. Seus olhares cruzam-se. Eles ocultam seus olhares como dois estranhos. Roselem pensou já tê-lo visto. Lembranças vagas perdidas. Fósseis da verdade enterrados nas profundezas de outras vidas.
A luz apagou. A cortina se abre.
FAUSTO:
Vivem-me duas almas, [ah no seio],
Querem trilhar em tudo opostas sendas.
(No entanto, Fausto não sabe como ele pode restabelecer a ponte com o mundo espiritual).
FAUSTO:
No impulso alado que me enleva
Corro a embeber-me no imortal farol.
À frente luz e atrás de mim, treva.
Aos pés o oceano e o empeceu sobre mim.
As asas da alma, ah tão ligeiras assim,
Não se haverão de aliar a uma asa corporal
Mas, a nós, toda uma inata Voz,
Para o alto e para frente guia.
Ora, o ser humano pode ser conduzido.
Para a sua meta mais elevada:
A força universal de Cristo está ligada a terra
Para possibilitar o caminho desse retorno.
FAUSTO:
Era no início o Verbo.
(Aqui ele está claramente consciente de que há uma saída do labirinto mortal de Ariadne, porém ainda não conseguiu o acesso a esse caminho que conduz à porta de saída. Ele continua a busca de maneira intensa, mas ainda não tem conhecimento suficiente para penetrar na essência do Evangelho de João. Por isso ele traduz o Evangelho de João de outra forma).
FAUSTO:
Escrito está; no início era o sentido.
É o sentido, então, que tudo gera e cria?
Deverá opor, no início era a energia.
Do espírito me vale a direção,
E escrevo em paz; era no inicio a ação.
Ora, foi sem dúvida a ação da alma natural que provocou a queda.
(Em sua luta para encontrar o ponto de ligação com o divino, Fausto é confrontado com a consciência terrestre: Mefistófeles. Este procura fazer com que Fausto afunde na sua existência dialética. Mefistófeles descreve-se para Fausto).
MEFISTÓFELES:
Sou parte da energia
Que sempre o mal pretende
E que o bem sempre cria.
(Como Fausto ainda não descobriu seus próprios limites, permanece intimamente ligado a esse guia. Então rejeita todos os valores que poderiam levá-lo à semente da alma divina. A esta negativa os espíritos dão a sua resposta).
ESPÍRITOS EM CORO:
Dê-lhe o peito acolhido
Novo curso de vida.
Inicia com claro
Senso e preparo
E com cantares
E exalta a lida
Os espíritos mostram para ele que o Antigo Templo deve ser destruído para ser construído um novo. Mas para isso ele deve encontrar o ponto profundo da sua rendição interior. Mas na sua teimosia humana ele tenta matar a voz do espírito interior e mergulhar nas profundezas do mundo dialético de Mefistófeles. Este sempre tenta satisfazer todos os desejos para calar, para sempre a voz, que chama o coração, para ganhar a sua alma. Fausto e Mefistófeles fazem o pacto que é selado com o próprio sangue. Passa então a ser guiado por sua consciência terrestre e pertencer a Mefistófeles. Acordos como esse, muitas vezes, são à base de muitas existências humanas. No entanto aquele que busca o caminho do retorno para encontrar o portal, que dá acesso ao princípio divino, certamente se desenvolve e encontra a sua libertação. Mefistófeles não pode atacar a alma divina, apenas a natural: a terrestre.
Aplausos! Aplausos! As pessoas levantam-se emocionadas. As cortinas se fecham para o ato final.
22 horas.
O homem de preto se vira e olha rapidamente para Roselem. Ela desvia o olhar dos olhos que a procura. Parecia que ia dizer algo para ela. O coração palpita. Mas o seu cérebro racionaliza. Ele se levanta, sai na sua frente e deixa cair um envelope com um livro. Roselem sai e chuta sem querer. Quando o vê abaixa para pegá-los. Tenta procurar o homem para devolver os objetos perdidos. Mas não o encontra. Ah!Por que os passos não obedecem, às ordens do coração?
22.30 horas.
Roselem chega inquieta em casa. Olha o resultado do exame medico. Dos 48 cromossomos que determinam a característica genética, 6 não batia com o código da espécie humana. Seria essa a causa de suas visões e mutações? Roselem sentia transformar-se e transportar-se por um fluxo de energia que se materializava em tempos e lugares diferentes. Queria encontrar uma resposta científica para as visões e as viagens no tempo.
23 horas
Tomou banho e deitou-se. Olhou o envelope tinha o numero do endereço 946 Rosalem abriu. Estava escrito:
...É inútil antecipar o tempo marcado. Não se podem colher os frutos antes de amadurecer. Cada coisa deve vir ao seu tempo. A sementeira lançada a terra, fora do tempo, não produz.
. Roselem fechou o livro. Estava cansada, mas não tinha sono. Rolava na cama. Em gestos bruscos, nervosos, levantou-se e esbarrou no criado mudo. Caiu do seu baralho a carta número 7 do oráculo da lua. Seria um aviso? Foi para a cozinha. Bebeu um copo de água e foi para varanda. Ficou pensativa... Sentia-se prisioneira... Uma angústia interior. Olhou para a sua marca de nascença: um X no punho com dois números na parte superior: 4 e 2. Qual era o significado daquela marca? Roselem voltou para o quarto. Abriu a gaveta, pegou seus três terços e colocou no pescoço. Procurou seus comprimidos para dormir. Sim, para dormir... Sonhar... Mudar e transportar-se...
Tomou 4, pegou o telefone, ligou varias vezes para o numero 1032 e 976 e 920.
12 horas
. O desespero tomou conta do seu ser. Levantou-se da cama e foi para a sala. Era o início da manifestação. Começou a chorar. Olhou sua estrela. Correu para o centro da mesa da rosa dos ventos. Pegou a Bíblia à procura da palavra. Abriu no Salmo 32. Estava escrito:
´Instruite-ei, e ensinar-te-ei o caminho que deves seguir, guiar-te-ei com os meus olhos.
Rosalem não continuou a ler o que estava escrito. Erguendo-se de maneira rápida, imbecil e violenta jogou tudo que estava sobre a mesa do novo no chão. Não quis continuar. Parou na metade.
Queria fugir não sabia para onde. Voltar, talvez... Sentou-se no chão quadriculado da sala e chorou. A sua rosa branca estava secando. A rosa parecia ser o seu último bem. Roselem teimava em não abrir os olhos de sua alma. Seu corpo tornou-se um peso insuportável. Segurou com a mão esquerda a torneira da pia. Então, como se quisesse se livrar das algemas que a mantinham presa, cortou os seus pulsos. O sangue jorrava do corte colorindo com um vermelho triste, sombrio, o branco de uma rosa caída.. Caminhou até a sala, quase rastejando, mas, ainda, de pé. Estava deixando para trás rastros de seu sangue. Sua cabeça girava. Sua visão escurecia. Estava tonta. Abriu a porta da sala de jantar. Quando chegou finalmente, até a mesa, tropeçou e caiu com a face ensangüentada sobre a Bíblia aberta em Gênese.
1 hora da madrugada.
Era só silêncio. Uma voz de um anjo azul clamou na luz:
— Desperta, ó tu que dormes, levanta-te de entre os mortos, e ele te iluminará!
Roselem, Roselem! Acorda! Acorda!
Não temas! Vá em frente!
Era o anjo Rafhael com uma estrela de oito pontas e um olho em seu centro. Agarrados à roda duas criaturas com corpo de homem e cara de animal.
Ele levantou os braços para o céu e fez uma oração:
-Ó SANCTE IOHANNES! Ó SANCTE MICHAEL! LABII REATUN SOLVES POLUTI! DESPERTA! DESPERTA!
Ela foi abrindo os olhos vagarosamente. Levantou-se, o seu corpo estava leve. Olhou em torno. Era um lugar tranqüilo, iluminado por uma luz branco-azulada. O anjo Raphael disse:
— Até oito mil noites de lua cheia, madrugadas e pores-do-sol o lugar sagrado ficará na sua posição correta até que venha a estrela prometida.
Roselem abria e fechava os olhos. Aquilo só poderia ser um sonho.
— Vamos, Roselem, abra os olhos e veja! – disse apontando para uma mulher nua com asas de borboleta caída ao lado de uma rosa branca.
— Faz aquela ali entender que o que você viu e sentiu é verdade. Agora te junta a ele e não se abandonem mais.
Então o anjo pegou o violino tocou e cantou uma canção de amor para ela:
EU Quero estar no seu pensamento
Por um momento pensar que você pensa em mim
. Passou a mão sobre a face. Não sentiu as mãos úmidas de suas lágrimas. Olhou para o chão. Era branco, brilhoso e iluminado. Não tinha marcas de sangue. Ergueu os braços e os cortes dos pulsos tinham sumido. Estava livre. Roselem sorriu. Estava feliz. O anjo tocou o violino com a música mais vibrante. Roselem cantava com ele e dançava. O MAGO apareceu para ela com um buquê de rosas. Tirou uma, entregou para ela dizendo:
— Aqui está o seu presente.
-- Quem é você?
-Eu sou o ciclo do seu novo recomeço. EU SOU 111. EU SOU 888. EU SOU 33. EU SOU 1032 DO NOSSO TEMPO. Decifra-me no rolo do livro de mim!
Raphael olhou por dentro dos olhos dela e disse:
Veja a outra mulher ela se nega a compreender a palavra do uno. Assim ela não verá o que há por traz da palavra. É preciso entender as varias formas de se falar e de mostrar o que muitos não vêem no espaço e no tempo. Isto torna difícil porque altera todo o vocabulário humano racional. O que vem da essência não é racional. É impossível dançar a Valsa do Amor no compasso de dois tempos. Faça a tua outra entender o que você é agora! Desperta! O que você está vendo e vivendo não é uma visão. É realidade! Leve a sério o que acaba de ver, pois foi à maneira que encontrei de chegara a você.
2 horas da madrugada
Neste momento o telefone tocou. Roselem abriu os olhos. Acordou espantada. Estava na sua cama deitada nua. Atendeu ao telefone. A voz do outro lado disse: Você já terminou o livro do mago de Santa Ana?
Ela pensou em segredo e balbuciou:
-Ó meu eterno amor o que é o tempo para um dia já marcado? Venha novamente para mim e beija-me com os beijos da tua boca, porque melhor é o teu amor que o vinho?Só contido beberei no cálice que transborda.
08h52min, dia 4, Segunda-feira
Era um novo dia, um novo tempo. O relógio estava parado em 02h45min min. Pegou a jarra em cima do criado mudo e na cozinha colocou água. Foi até a sala. A Bíblia estava aberta no chão. Ficou parada ali, pensativa. Olhou novamente e viu uma rosa ao lado de uma pena de um pássaro, talvez.. Roselem ajoelhou. Fico em silêncio Depois, colocou delicadamente no jarro a rosa branca, pegou a pena do pássaro e deixou entre as páginas abertas da Bíblia.
00h09min horas
Na folhinha do seu quarto estava. Estava escrito:
Quando acreditamos, às vezes temos a oportunidade de mudar e reescrever a nossa história, por isso o coração não se vangloria pelo que começa e, sim, pelo que consegue terminar.
-Está escrito no livro de mim: Rosalem o nosso tempo é agora!
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