A morte
Que escuro, meus olhos estão abertos ou fechados?
Levanto meu braço, em volta parecem madeiras grudadas, o que está acontecendo comigo? Não consigo mexer meus pés, parecem adormecidas, não posso levantar-me, está muito quente aqui e não sinto o ar entrando por canto algum! Fecho meus olhos:
Meus pais, estico meus braços e meus dedos para tocar seus ombros, mas eles se abraçam. Dou meia volta neles e observo seus rostos, lágrimas estão caindo em suas roupas, e soluços bem baixo somem no abraço apertado que estão dando. Não consigo tocá-los, mas sinto a respiração dos dois, sinto seus batimentos cardíacos acelerados e o coração de ambos apertados.
Abro novamente meus olhos, mas nada vejo em minha frente, pergunto-me: onde estão meus pais? Será que sonhei? abro a boca para gritar e pedir para me ajudarem, mas a voz falha, a garganta raspa como lâminas rasgando minhas cordas vocais. Fecho a boca e sinto somente o cheiro: o cheiro de terra, de mato, de madeira. Adormeço:
Estou em casa, dormindo em minha cama, minha mãe está ao meu lado, com um copo delicioso de leite integral quentinho e um lanche de presunto e queijo em seus joelhos.
Meu estômago está doendo muito, estou com fome, preciso de me levantar e reconhecer o lugar aonde estou, parece que está de noite, mas não vejo sombras e nem as estrelas, estico meus dedos das mãos e sinto grãos entre eles, porém estão úmidos. O ar está cada vez mais fraco e dificultando a minha respiração, estou entrando em desespero, empurro as madeiras de cima de mim com toda força, mas não se movem, parece que têm coisas em cima evitando que sejam abertas. A fome aperta e fico cada vez mais fraca, preciso de me alimentar. Dentre os dedos, coloco um pouco de terra e levo-me a boca, o gosto de terra úmida, mas a fome me aperta cada vez mais.
Os movimentos dos braços e das pernas estão cada vez sumindo, ouço meu coração batendo, uma lágrima escorre em meu rosto e a gota entra em minha boca, até umidecer minha garganta, mas não era suficiente, apertei os dedos da mão e dos pés até não conseguir mais, o sangue escorre até a madeira de onde estou deitada, a respiração está ofegante, cada vez mais ofegante, até não sentir mais nada.
Minha última visão foram as pessoas que amo, o meu passado e a saudade que deixei.
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