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Último beijo

Líquido denso de cristais perolados

Precipita sobre aquela gélida lápide

Onde dorme cabelos encaracolados

Cor-de-fogo...Adormecida olhos-jade...

Sopra o vento veneno que mortifica...

Sobe a poeira e se vivifica os ciprestes...

Jaz, fria... Longe do mundo terrestre...

Muito próximo do enigma da vida...

Repousa sob a caiada cruz, uma ave...

Pia notas tristes, tétricas e sinistras...

Com abundantes lágrimas e força das mãos

Cavo um turvo túnel pela úmida noite...

Tenho meu próprio desespero como açoite

E como eminente inimigo, meu coração...

Ferido estou pelo dente ciso da ansiedade.

Pelos meus dedos? Terra preta e sangue rubro.

Cavo, cavo, cavo... Com ensandecida velocidade...

Até que, por fim... Toquei algo rígido... Duro...

Era teu recanto de última e infeliz morada!

Há! Jesus! Como minha alma padecia! Como eu chorava!

Não era possível que ali, desfalecida, ela jazia!

Não! Eu nunca poderia deixar-te partir...Querida!

Não hesito um minuto atômico sequer!

Quebro toda colcha de madeira verniz...

Vi tu morta! Fim do meu mundo infeliz!

Morta! Morta! A mais formosa mulher...

Morte, sua mão infame a tocaste...

Sua miserável, ela é minha! Só minha!

Pego-a em meus longos braços...

Te toco na face morta... dou-te afagos...

Como teceu errado a aranha da Vida?

Beijo-a muito... Frios e roxos os lábios...

Bebo com minha língua, meu pranto de sal.

Caio sobre teu corpo... Sinto o gosto do metal...

Esboço um pulcro sorriso... Sinto-me me esvaíndo...

Vejo, por um instante, teus olhinhos abrindo...

Cai, ensanguentado, sob a lápide, meu punhal...

2008-06-03 Poemas e poesias Gilmar Ferreira Gilmar Ferreira
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Comentários

Acredita que eu li só o primeiro verso e já sabia a que autor pertencia?Sua linguagem é única Gilmar,inconfundível...bjos Ana Raíssa Lindo poema! Mário Cesar Serafim
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